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Como a Riachuelo se prepara para o futuro

Varejista quer ter um lugar especial no celular do consumidor

Por Mônica Scaramuzzo

Atenta ao movimento de consolidação no varejo de moda, a Riachuelo vê um novo ciclo de mudanças no setor, fortemente atingido pela pandemia. “A Riachuelo quer ser superapp [superaplicativo] de moda”, diz Flávio Rocha, presidente do conselho de administração do grupo Guararapes, dono da varejista.

Rocha disse ao Valor que a companhia tem se preparado para ser mais digital, com uma estratégia mais voltada para o marketplace [shopping center virtual], a exemplo de outras grandes varejistas tradicionais. “A pandemia precipitou a consolidação do setor e o novo papel do varejo. Mas a gente acredita em um ecossistema temático, não generalista. O setor de moda é ‘figital’ [venda das lojas físicas e digital]. É mais que do que moda. É ‘life style’ [estilo de vida]. E o mundo digital permite essas pontes, que inclui moda, cultura, lazer, gastronomia e arquitetura”.

Com a nova onda de aquisições do setor varejista – recentemente, o grupo Soma atravessou a Arezzo e comprou a Hering -, a Riachuelo é apontada pelo mercado como um dos grupos consolidadores, ao lado da Renner, que levantou cerca de R$ 4 bilhões em uma oferta subsequente de ações (“follow on”) para promover sua expansão.

Segundo Rocha, a estratégia não passa necessariamente pela compra de uma rival do varejo. A Riachuelo é apontada por especialistas do setor como uma potencial interessada na rede Marisa e na concorrente C&A. As plataformas de moda Dafiti e Privalia também estariam no radar de grandes varejistas. Rocha nega que a companhia esteja em negociações para comprar rivais.

“O que estamos vendo agora é uma visão mais analógica, de uma empresa de varejo comprar outra concorrente”, disse. De acordo com o empresário, a Riachuelo está em um outro momento. Com uma área de fusões e aquisições recém-criada, a varejista de moda quer concentrar sua expansão em logística e distribuição para avançar no canal digital e expandir sua atuação como marketplace. Esta plataforma, até o fim do ano, deverá reunir cerca de 200 “sellers” (vendedores).

O futuro do varejo de moda, segundo Rocha, será uma briga mais pesada para definir quem vai ganhar mais espaço no smartphone. “O cliente não vai ter 300 aplicativos no celular. Terá no máximo um ou dois players.” É esse espaço que a Riachuelo quer dominar.

“A habilidade de fazer as parcerias é fundamental para se ter escala. Temos uma área de TI com 700 colaboradores. O nosso marketplace está sendo desenvolvido internamente. Somos um canteiro de pequenas startups. A palavra de ordem é ganhar escala”, diz o empresário. A marca americana de roupas infantis Carter’s é umas das principais âncoras do marketplace do grupo.

A Riachuelo – segunda maior varejista de moda do país, atrás da líder Renner – encerrou o ano passado com receita líquida de R$ 6,2 bilhões, queda de 20% sobre o ano anterior. O grupo reportou prejuízo de R$ 27,1 milhões, ante lucro de R$ 592 milhões no ano anterior. Rocha prevê recuperação das vendas este ano com o fim das restrições por conta da pandemia.

No quarto trimestre, a varejista encerrou com endividamento líquido de R$ 706,9 milhões, ante R$ 1,25 bilhão em dezembro de 2019. Embora menor em valor absoluto, a relação dívida líquida/ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) subiu de 1,2 vez ao fim de 2019 para 3 vezes no fim do ano passado.

Ao contrário da principal rival, que captou R$ 4 bilhões na bolsa, recentemente, a Riachuelo não pretender recorrer ao mercado de capitais, por ora. A expansão deverá ser feita com caixa próprio.

Para Eduardo Terra, presidente da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC), a Riachuelo tem um diferencial em relação aos concorrentes, que é a sua operadora financeira, a Midway, com 32 milhões de cartões emitidos. “Não se monta uma plataforma (de marketplace) sem robustez de logística, tecnologia e meios de pagamento”, observou. “A empresa financeira da Riachuelo é o principal diferencial em relação à Renner. Já a Renner está mais adiantada em tecnologia e inovação”, complementou.

Guilherme Assis, analista do banco Safra, vê a Renner mais capitalizada para liderar o movimento de consolidação do setor de moda. Mas o especialista em varejo vê a Riachuelo como uma marca mais forte e sua estratégia de avançar na plataforma de marketplace como acertada. Na corrida pela consolidação da liderança no setor, Assis vê C&A e Marisa no elo mais fraco da cadeia. “Vamos ver cada vez mais o setor se consolidando, sobretudo as marcas de nicho, como vimos Soma e Arezzo se movimentado mais recentemente.”

Com cerca de 320 lojas em todo país, a Riachuelo não prevê o fim das lojas físicas, mesmo com o avanço do on-line após a pandemia. Mas Rocha decreta o fim do modelo das lojas de departamento. “A tendência pós-pandemia é um misto dos dois mundos. Nosso setor tem maior troca de chumbo entre o físico e o digital. Não é à toa que Amazon começou por livros, onde a percepção do valor não depende do contato físico. Estamos no outro extremo dessa cadeia. Na moda, a loja física tem um papel importante para interação, incentivo e toque. Temos meios intermediários de distribuição, com retirada [da mercadoria] em loja. A compra também pode ser totalmente digital, mas com a troca sendo realizada na loja.”

Fonte: Valor Econômico