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Brasil precisa de mais empatia para ter coordenação melhor, diz presidente da C&A

Para Paulo Correa, vacinação deve ser a agenda número um das lideranças políticas e empresariais

Por Joana Cunha

Para o presidente da C&A, Paulo Correa, a ideia de que a aceleração dos negócios digitais acabará com a loja física é uma lenda. Ainda há espaço para ocupar no Brasil fora das capitais, e o plano de expansão para 2020 está mantido, mas a incerteza das restrições da pandemia pode exigir revisões. O país precisa de empatia para superar a situação dramática, afirma o executivo.

 No projeto de fashion tech, qual é o passo a mais que C&A vai dar, se a pandemia já acelerou a digitalização para todos até aqui? A tecnologia permite um nível de contato e personalização com o consumidor em massa que não se conseguia fazer antes. Antigamente, não era possível escalar isso em segmentos mais democráticos, na amplitude de população em que a gente atua.

A partir de agora, a gente consegue, cada vez mais, trazer serviços, produtos ou comunicações mais direcionadas, sem necessariamente ter a figura antiga do vendedor que sabe tudo sobre você, te conhece profundamente e sugere o que é melhor. Baseado nas suas preferências, a tecnologia conceitua o seu perfil e te oferece, quanto mais os algoritmos conseguem entender o que te interessa. É mais volume de vendas e mais experiência personalizada e acessível para o cliente.

Com pandemia e avanço do ecommerce, tem fechamento de loja física no radar? A venda online extrapolou o ecommerce. Ganhou força a venda pelo WhatsApp, que é outra forma de venda digital. Outro canal que está avançando são os revendedores digitais da C&A, com pessoas, influenciadores, membros do nosso conselho fashion, que estão divulgando nas redes sociais, com informações das nossas coleções. Eles revendem e são remunerados.

Na pandemia, obviamente, tem um pico, mas a aceleração dos canais dessa venda online é irreversível. O ponto que estabelecemos quando começou a pandemia, em termos de participação na venda, tem sido mantido independentemente da abertura ou fechamento de lojas.

Agora, por exemplo, em que fecharam mais lojas de novo nessa segunda onda, essa participação aumenta, mas a venda online veio para ficar. Como fica a loja física? Cada vez mais está tendo uma fusão da experiência. Não importa de qual canal vendeu. É a cliente que escolhe o caminho. Pode pesquisar online e ir na loja pegar o produto. Pode preferir ouvir a revendedora e depois passar na loja e escolher.

A loja física tem um papel na venda online cada vez mais preponderante. A nossa participação de vendas online feitas a partir do estoque da loja é quase a maioria atualmente. A loja física como centro de distribuição é um fato. Você disponibiliza todo o estoque da companhia para as pessoas em vez de deixar em um centro de distribuição.

A C&A tem participação forte no Sudeste e Nordeste. Tem lojas em todas as capitais. Onde ainda vemos oportunidade grande são localidades que não são capitais. Tem espaço enorme ainda. A loja está tendo uma resignificação. Não acredito na história de que loja física vai acabar. Para mim, é uma lenda. Tem muito espaço para criar experiência mesmo para quem comprar online.

Marcas menores do varejo de moda têm lamentado muito a negociação de custos com shoppings. Como é isso para vocês? Quando tem um problema, por exemplo, as lojas estão fechadas, tem que sentar e discutir. As discussões estão acontecendo sim, com todos os empreendedores, todos os meses. Temos vários indicadores, por exemplo, de horas úteis que estão sendo utilizadas de fato. Quanto das horas úteis a gente está usando em um mês em determinado shopping? A gente senta com os empreendedores e tenta encontrar valores justos para os dois lados.

Tem uma parte mais direta, que é o condomínio, aquele mínimo que você tem que manter, independentemente se o shopping está aberto ou fechado. Mas tem o outro pedaço, que é o aluguel, que é um retorno sobre um investimento que o empreendedor fez. No momento que tem uma crise como essa, o cara querer manter o mesmo nível de retorno é complicado. Isso não é parceria. Na parceria, tem que ter esse tipo de discussão.

E o plano de expansão? O inicial de 2020 foi revisado no início da pandemia, mas abrimos dez lojas e, neste ano, também estamos com nosso plano montado. A pandemia atrapalha um pouco. Por exemplo, tem loja que ia abrir em março, mas foi adiado pelos decretos municipais. O cronograma de expansão, de pelo menos 20 neste ano, está bem definido.

O nível atual de restrição de circulação mais crítico está contemplado nisso? Gera incertezas. Nossa intenção continua sendo essa. Dependendo do tempo que aconteça, da abrangência, pode levar a algum nível de revisão.

Qual é a sua visão de futuro e a mensagem do que o Brasil precisa neste momento da pandemia, de colapso e gestão da crise aos trancos? Acho que precisamos de mais empatia e colaboração para ter um nível de coordenação melhor. É dramática a situação. Precisamos nos colocar no lugar das pessoas, tentar ajudar, entender. Precisamos nos organizar e colaborar para garantir esses passos importantes, tanto o distanciamento, enquanto houver essa crise maior e as limitações hospitalares, como principalmente a vacinação.

Essa é a chave. Precisamos nos mobilizar violentamente para garantir que a vacinação aconteça. Isso deveria ser a agenda número um das lideranças políticas e empresariais nesse momento.


RAIO X

Paulo Correa é presidente da C&A no Brasil. Formado em engenharia da produção pela UFRJ, tem MBA pela The Fuqua School of Business, da Duke University (EUA). Antes, ocupou a vice-presidência comercial da C&A e liderou áreas como marketing e relacionamento com cliente. Também passou por McKinsey e outras.

Fonte: Folha de S.Paulo