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Pandemia desmonta produção de fast fashion

“O impacto no varejo será enorme”, dizia o e-mail, “como tenho certeza que você já deve saber”. Foi apenas nesse momento, diz Mostafiz Uddin, chefe da fabricante de roupas Denim Expert, de Bangladesh, que a ficha realmente caiu e ele percebeu o tamanho do golpe que coronavírus teria em sua empresa e seus 2 mil funcionários, que costuram jeans para marcas europeias de alto padrão.

A mensagem, da Peacocks, varejista britânica de “fast-fashion”, chegou à caixa de correio digital de Uddin em 17 de março, época em que vários países europeus e governadores dos Estados Unidos estavam adotando medidas de confinamento. Explicava que a Peacocks não pagaria à Denim Expert nenhuma das roupas que encomendara, incluindo o “estoque já entregue”.

Com os consumidores obrigados a ficar em casa, a demanda por novas roupas evaporou-se. Embora alguns varejistas ainda estejam operando na internet, o fluxo de receita para muitas das maiores empresas do mundo no setor secou. Salários e aluguéis passaram a queimar o caixa e os estoques a se acumular nos depósitos.

A consultoria McKinsey estima que mais de 30% dos participantes do setor mundial de moda, incluindo lojas de departamento e marcas, não sobreviverão à crise.

O impacto é sentido em todas as cadeias de fornecimento do setor, de US$ 2,5 trilhões, atingindo segmentos cujas empresas e funcionários nem sempre têm condições de ter acesso aos auxílios emergenciais oferecidos pelos governos. As lojas fechadas na Oxford Street, famosa rua comercial de Londres, repercutem muito rapidamente – fábricas são fechadas em Bangladesh e no Vietnã e sobem os estoques de algodão na Índia central.

O dano causado pelas quarentenas em lugares como o Reino Unido coloca em dúvida se os rasgos aparecendo nessas cadeias de fornecimento poderão ser recosturados, mesmo na improvável hipótese de que haja uma rápida recuperação na demanda dos consumidores agora livres para voltar a visitar lojas.

Dessa forma, em vez das encomendas para suas coleções da primavera europeia de 2021 que as varejistas estariam fazendo normalmente nesta época do ano, agora elas tentam desfazer contratos. A Peacocks se recusou a pagar mais de 43 mil pares de jeans que os funcionários de Uddin em Chittagong já haviam costurado, encomendado a terceiros ou já despachado. A Arcadia, dona da Topshop, informou à Denim Export – que também atende a Inditex, dona da Zara, e a canadense YM – que não pagará encomendas no valor de US$ 2,5 milhões.

Uddin diz que seus funcionários tentaram contatar a Peacocks e a Arcadia, propondo acordos quanto às roupas ainda em produção. Estes acordos permitiriam redimensionar ordenadamente a fábrica, mas Uddin não teve nenhuma resposta.

A Arcadia, que colocou cerca de 90% dos 16 mil funcionários no esquema de licença remunerada do governo britânico, não quis comentar o assunto. A Peacocks, de início, informou que considerava suas contas com a Denin Expert já solucionadas entre ambas as partes. Explicou que não tinha conhecimento de problemas e considerou os cancelamentos “um passo essencial, já que, de outra forma” estariam recebendo mercadorias que não conseguiriam vender. Posteriormente, contudo, reconheceu que não havia atendido diversos pedidos de pagamento da Denim Expert. Uddin diz que ainda não recebeu nenhum dinheiro.

Bangladesh é o segundo maior exportador mundial de roupas. Desde o início da crise, os fabricantes de roupas no país deixaram de receber mais de US$ 3 bilhões em pagamentos por camisetas, calçados e vestidos produzidos ou terceirizados – equivalente a meses de produção – segundo a Associação de Fabricantes e Exportadores de Roupas do Bangladesh (BGMEA, na sigla em inglês).

O setor gera a maior receita com exportações no país e emprega mais de 4 milhões de pessoas, a maioria mulheres. Associações setoriais em Bangladesh estimam que mais da metade desses trabalhadores já foi demitida.

Em abril, trabalhadores exigindo que os empregadores continuassem pagando salários entraram em confronto com a polícia, o que levou o governo a intervir e cobrir 65% dos salários – um crédito que os fabricantes precisarão pagar. Algumas fábricas reabriram, trazendo temores de que os funcionários estejam sendo colocados em risco para ajudar o país a reanimar a economia.

O executivo-chefe (CEO) do Baird Group, Mark Cotter, diz que a empresa, dona de marcas masculinas, como a Ben Sherman, tem levado mais tempo do que o normal para pagar seus fornecedores pois “o fluxo de entrada de dinheiro desacelerou, mas temos 100% de intenção de pagar-lhes.”

Ele diz não conhecer as questões legais de varejistas se recusarem a pagar encomendas, mas suspeita que os fabricantes não têm condições de recusar. “Nos bastidores, eles podem estar dizendo ‘não vamos te pagar e você precisa aceitar isso ou, de outra forma, não voltaremos a fazer negócios com vocês’”, diz Cotter.

Elizabeth L. Cline, que escreve sobre práticas ambientais e direitos trabalhistas no setor de moda, argumenta que a terceirização permitiu aos varejistas distanciar-se dos riscos na cadeia de fornecimento.

“Apesar de as marcas controlarem tudo na cadeia de fornecimento, elas as montaram de forma que os trabalhadores não possam pedir o que eles precisam”, diz. O sistema é projetado para funcionar de forma similar ao modelo de negócios de empresas da chamada economia “gig” (dos “bicos” ou trabalhos temporários), como o Uber. “Vamos fingir que nossos trabalhadores essenciais não são nossos funcionários e deixar o risco com as pessoas menos preparadas para lidar com isso.”

Bangladesh, Vietnã e Sri Lanka estão entre os países que, nas últimas décadas, se tornaram centros mundiais de produção de boa parte das roupas, acessórios e calçados do mundo rico. Antes concentrada na China, a produção transferiu-se para o sul e sudeste da Ásia, à medida que as varejistas tentavam reduzir os gastos com salários.

Essa abordagem andou lado a lado com os esforços de varejistas de moda para encorajar um consumo mais frequente de produtos baratos – a chamada moda rápida ou fast-fashion – e, assim, impulsionar a receita, diz Patsy Perry, professora titular de moda na Universidade de Manchester. Muitas marcas de moda rápida recebem novos estoques a cada semana.

Os varejistas sempre têm vantagem na relação com os fabricantes asiáticos e as exigências de descontos retroativos são comuns, segundo Perry. “Ouvimos muitas conversas sobre parcerias, mas se um fornecedor diz que não pode aceitar certas condições, então o varejista sempre pode buscar algum outro”, diz Perry.

Uddin diz que não entrará na Justiça contra os clientes que o deixaram com contas pesadas a pagar. “Se eu processar, ficarei conhecido para sempre como o fornecedor que processou seu cliente. Provavelmente, estaria acabado como empresa”, diz.

No Vietnã, economia de maior crescimento no Sudeste Asiático antes da pandemia, empresas da indústria de roupas já começaram a “desaparecer”, diz Hoang Ngoc Anh, secretária-geral em exercício da Associação de Roupas e Têxteis do Vietnã.

A organização estimou no mês passado que se o “lockdown” durar até junho, as companhias têxteis e confecções do país poderão perder mais de US$ 500 milhões em receitas. No entanto, o número real provavelmente será maior uma vez que os dados oficiais não capturam os pequenos fornecedores que deverão ser duramente afetados pelo colapso da demanda.

Anh diz que “até agora, cerca de 400 mil a 600 mil trabalhadores perderam seus empregos”, de um total de 2,8 milhões de trabalhadores do setor. “Isso é uma estimativa e podemos estar deixando passar algumas empresas menores e microempresas.”

Mais adiante na cadeia de fornecimento de varejistas e fabricantes, Ganesh Nanote, um plantador de algodão de Akola, uma tradicional região de cultivo de algodão no Estado de Maharashtra, se prepara para o impacto do coronavírus. “Nossa receita já está baixa e não podemos arcar com mais perdas”, afirma ele.

O cancelamento de encomendas derrubou em um terço os preços referenciais do algodão desde o começo de março e embora eles tenham se recuperado ligeiramente, o Comitê Consultivo Internacional do Algodão (ICAC, na sigla em inglês), um órgão setorial global, está prevendo que o preço médio da safra de 2020-2021 cairá para o menor patamar em 15 anos, de 57 centavos de dólar a libra peso.

A Índia é um grande produtor e exportador de algodão cru e produtos têxteis e o impacto sobre sua cadeia de fornecimento de algodão deverá ser grande. Smriti Irani, ministra dos Produtos Têxteis do país, pediu aos compradores internacionais em abril que não cancelassem suas encomendas. “Os cronogramas de entrega podem ser refeitos. Os planos de pagamento podem ser estendidos. Se decidirmos trabalhar juntos, reitero meu apelo: não cancelem as encomendas”, suplicou ela.

O apelo foi ignorado. Uma pesquisa feita em abril pela consultoria Rajesh Bheda entre 60 fábricas de roupas indianas, mostrou que quase 40% das encomendas foram parcialmente ou totalmente canceladas.

Apesar da tórrida experiência recente dos varejistas tradicionais (com lojas físicas), a McKinsey classificou no ano passado a indústria global da moda de uma das “raras histórias de sucesso econômico” da última década.

Mas por trás dessa manchete há uma história de consolidação extrema. Em 2019, 97% dos lucros do setor foram gerados por apenas 20 companhias, incluindo a Inditex, a maior varejista de roupas do mundo, e a varejista de produtos esportivos Nike – um domínio que só deverá aumentar numa recessão, segundo Achim Berg, que comanda o trabalho de consultoria de moda da McKinsey.

Ele diz que os varejistas e os fornecedores do setor da moda precisam se preparar para um “retrocesso darwiniano”.

A H&M foi uma das primeiras varejistas globais a prometer que apoiaria os fabricantes e os trabalhadores que fazem suas roupas, pagando todos os produtos encomendados, incluindo os ainda em produção. “Queremos garantir a viabilidade futura do setor assim que a crise passar”, disse a H&M em um comunicado. Outras como a Inditex, Marks and Spencer e a Philips-Van Heusen, controladora da Tommy Hilfiger, prometeram desde então apoiar suas cadeias de fornecimento.

Mas alguns varejistas têm sido acusados de agir muito lentamente. A Primark, uma grande varejista britânica, disse no começo de abril que iria pagar os trabalhadores do setor de vestuário pelo cancelamento de encomendas. Mas os salários respondem por apenas cerca de 15% das encomendas de 256 milhões de libras que a Primark cancelou junto a fabricantes de Bangladesh, segundo a BGMEA. A companhia, que antes da crise tinha vendas semanais de cerca de 650 milhões de libras, posteriormente anunciou que vai pagar pelas roupas recebidas até a metade de abril – algo avaliado em 370 milhões de libras para os seus fornecedores globais.

Nazma Akter, uma sindicalista e fundadora do grupo de defesa dos interesses dos trabalhadores de Bangladesh Awaj Foundation, diz que “caridades” como a da Primark pouco farão para ajudar os trabalhadores afetados. “Eles estão se protegendo, afirmando ‘estamos assumindo responsabilidade’”, diz Akter. Mas nosso pessoal está apanhando da polícia por protestar nas ruas, pedindo um dinheiro que é seu, e ninguém está com essas pessoas.”

Berg defende os varejistas, afirmando que alguns simplesmente não estão em posição de pagar os fornecedores. “É a maior crise da indústria da moda em mais de 100 anos… a primeira reação tem sido não pagar ninguém, nem os fornecedores nem os locatários”, diz ele. A Associated British Foods, controladora da Primark, que concedeu licenças a 68 mil trabalhadores em toda a Europa, é uma das várias companhias britânicas que vem se recusando a pagar os aluguéis trimestrais aos locatários.

As cadeias de fornecimento serão diferentes no futuro, segundo acredita Berg. Seus clientes já estão tentando reduzir o tempo que uma camisa encomendada leva para chegar às lojas, aumentando sua flexibilidade diante dos choques de demanda. “As duas últimas semanas mostraram a vulnerabilidade da cadeia de fornecimento… e aceleraram a percepção de que é preciso estar mais perto da fonte”, explica ele.

Isso casa com aqueles que vêm exortando os varejistas a trazer a produção para mais perto de casa, afirma Carry Somers, uma estilista e fundadora do grupo lobista Fashion Revolution. “A indústria do vestuário é uma tábua de salvação para milhões de pessoas e uma maneira tirar as pessoas, especialmente as mulheres, da pobreza”, acrescenta ela.

Paul Lister, diretor de comércio ético da Primark, não acredita que a pandemia terá um impacto sobre onde os varejistas vão fabricar suas roupas no futuro. “Acho que o sistema é muito flexível”, afirma ele, explicando que a companhia trabalha com mais de 700 fornecedores de países que vão da Turquia ao Camboja. Ele acrescenta que as cadeias de fornecimento longas na Ásia são importantes porque permitem à empresa “manter os custos no mínimo”.

De volta a Chittagong – uma viagem de sete horas a partir da capital Dhaka -, a fábrica de Uddin vem operando com cerca de 30% da capacidade desde a primeira semana de maio. Mas seu depósito está abarrotado de jeans, que ele teme não conseguir mais vender. E embora tenha recebido algumas pequenas encomendas, Uddin diz que os fornecedores de tecidos estão se recusando a negociar com ele enquanto não receberem os pagamentos do denim que ele não consegue embarcar.

Ele afirma que se os varejistas não pagarem pelas roupas já em produção, não terá empresa para salvar. “E esses pagamentos não acontecerão se as pessoas não entenderem a escala desse desastre.” (Tradução de Sabino Ahumada)

Fonte: Valor Econômico