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Fundos voltam a apostar no varejo

30/10/2015 às 05h00
Por De São Paulo

No início dos anos 2000, as grandes redes de franquias brasileiras depararam com um assédio inesperado de fundos de investimento em participações e private equity nacionais e estrangeiros. Mostravam disposição em arrebatar uma fatia generosa do negócio. Muitas conversas resultaram na compra do controle majoritário da rede, outras, receberam aporte menor dos novos sócios. A euforia passou e os investimentos previstos para o segmento de franchising ficaram abaixo do esperado pelo mercado, sobretudo, em relação às pequenas e médias redes.
Desde 2014, porém, o movimento começa a ganhar corpo novamente, mas de forma mais equilibrada do que no primeiro momento. No ano passado, o Gávea Investimentos comprou quase 30% da marca brasileira de óculos Chilli Beans, tomando assento no conselho administrativo; o britânico Actis investiu US$ 68 milhões na rede de escolas de idiomas CNA e, em junho deste ano, a Squadra Investimentos tornou­-se dona de 100% da Imaginarium.
“Em um passado não muito distante, várias redes que acreditavam estar preparadas para receber a participação de um fundo, na prática não estavam”, afirma André Friedheim, diretor internacional da Associação Brasileira de Franchising (ABF). “Hoje, o cenário é diferente, boa parte das redes passou a olhar com mais atenção a própria gestão e a corrigir o que estava errado.”
“Não basta querer”, alerta Carlos Zilli, membro do conselho de administração da Imaginarium e responsável pelo desenvolvimento de novos negócios da marca. “O negócio tem de ter bom potencial de crescimento e boa análise de projeção financeira”, diz. “Quanto melhor estruturada a rede estiver, quanto mais processo de gestão qualificada apresentar, melhores serão os resultados da franquia e, consequentemente, o contado dos fundos.” Segundo Zilli, antes de qualquer coisa, a direção da rede deve responder as seguintes perguntas: Por que eu quero vender? Quando eu quero vender? Quanto da empresa eu vou vender? E o que vamos fazer depois?
No caso da Imaginarium foram mais de quatro anos de preparação, incluindo ações de planejamento estratégico de longo prazo, produção anual de relatórios de administração, auditoria feita pela KPMG e um olhar criterioso para cada área de operação da empresa.
“As redes devem se preparar com antecedência para este momento. Uma venda não acontece do dia para a noite”, afirma Zilli. “Para isso, é necessário muita organização, controle de processos e uma governança bem estruturada para viabilizar a operação e, ainda, a correta precificação dos ativos.”
Em 2012, a Imaginarium vendeu parte do negócio para a Squadra Investimentos e, em junho deste ano, o fundo passou a ter 100% do controle da rede, fundada em 1991, que conta com quase 200 lojas e quiosques, 650 pontos de venda multimarca e 50 lojas Love Brands.
O faturamento estimado para 2016 é de R$ 200 milhões, com a abertura de 30 novas unidades. “A empresa tinha problemas de sucessão, as filhas do fundador não queriam assumir o negócio”, informa Zilli. “Em 2005, eu entrei para assumir o dia-­a-­dia em substituição do fundador e, em 2011, com a morte da criadora da marca, a decisão de venda tornou-­se mais concreta”, explica. “Diante disso, iniciamos a preparação.”
Com a decisão tomada, Zilli foi pessoalmente visitar uma série de fundos, conversar com profissionais, a fim de encontrar aquele que mais se identificasse com o DNA da marca e tivesse uma visão de longo prazo, que não quisesse comprar a empresa para vendê-­la no ano seguinte. Uma conduta, segundo os consultores, importantíssima, já que fundo e rede devem comungar dos mesmos valores, para que os resultados apareçam. Sem essa sintonia fica difícil dividir as decisões com um novato à mesa, dar retorno de boa gestão e governança ao sócio patrão, bater metas para garantir lucros e enfrentar o choque cultural, que inevitavelmente, acontecerá.
“Diferentemente da maioria, buscamos uma complexidade de experiências entre os gestores do fundo e da empresa alvo”, afirma Fernando Figueiredo, diretor do 2+Capital, fundo de private equity focado em empresas brasileiras, que tem como investidores Artur Grynbaum e Miguel Krigsner, principais acionistas do grupo O Boticário.
Os dois não participam do dia-­a­-dia do fundo, mas fazem parte do comitê de investimento, que se reúne mensalmente para analisar os ativos e decidir sobre novos aportes. Segundo Fernando, eles objetivam trabalhar com os empreendedores no desenvolvimento de seus negócios, trazendo gente, dinheiro, experiência e uma boa rede de relacionamentos. “Não investimos apenas para vender no futuro”, reforça.
Com esta cartilha o fundo investiu em dezembro de 2010 na Frajo, distribuidora de cosméticos importados, com sede em Campinas; em 2011, comprou participação na Scalina, dona das marcas Trifil e Scala, e, em 2014, na Cia Tradicional de Comércio, referência no mercado gastronômico casual do Brasil, dona das marcas Piraja, Astor, Braz e Lanchonete da Cidade, entre outras. “Em todas entramos com uma visão de longo prazo, do quanto podemos ajudar a empresa a crescer nos próximos cinco ou dez anos”, observa Figueiredo. “O próximo investimento vem sendo trabalhado e testado com a abertura de três a quatro lojas na área de acessórios, antes de lançar a marca como franquia no mercado.”

Valor Econômico – SP