Por Talita Nascimento e Cynthia Decloedt | Enquanto dois nomes do varejo alimentar estão oficialmente em busca de compradores: o Hortifruti Natural da Terra, da Americanas, e o Grupo Pão de Açúcar (GPA), controlado pelo francês Casino, outros ativos do mercado chamam mais a atenção de fundos de “private equity”. Redes regionais, que atuam em cidades de até cem mil habitantes, são um alvo estratégico para investidores que buscam comprar o controle dessas empresas, com horizonte de saída de cerca de cinco anos.
A gestora Pátria Investimentos tem este foco no varejo alimentar. Mesmo colecionando nomes de executivos vindos do GPA, o Pão de Açúcar não parece estar no foco das compras. “Grandes redes têm muitas contingências e problemas societários. Enquanto as menores têm uma série de processos a serem aprimorados, que garantem um ganho muito maior”, disse uma fonte.
Uma das empresas investidas por esta frente da gestora, a rede Avenida, que atua no interior do Estado de São Paulo, já sente as mudanças. “Agora a gestão de resultados da empresa tem metas, orçamento e acompanhamentos semanais de uma forma diferente do que acontece em uma empresa familiar”, contou o CEO da empresa, Kiko Binato, ao Broadcast. O fundo comprou o controle da empresa em maio de 2022 e, ao fim de 2023, a rede já deve ter 16 lojas a mais do que no ano passado, fechando o período com 38 pontos comerciais. Nesta estratégia, o Pátria ainda teria espaço para realizar compras, com um horizonte para abertura de capital do negócio resultante de cinco anos.
Grandes redes têm muitas contingências
A Advent tem uma visão similar. Para uma fonte, o GPA, por exemplo, está machucado, já que ativos foram tirados de lá, como o Assaí e o Éxito, mas as contingências ficaram. “Por outro lado, o varejo tem várias redes regionais que cresceram e estão bem interessantes”, afirmou.
Para o presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), João Galassi, a desconcentração do setor, vista como oportunidade de consolidação por investidores, é, benéfica para a inflação do País. “No Brasil, 72% do consumo nos lares é fornecido por 1.250 empresas. Nos países da América Latina, em geral, essa parcela do consumo se restringe a cerca de dez empresas. Enxerga-se, portanto, uma grande oportunidade, por entender que esse setor vai se consolidar e (investidores) estão buscando esse poder”, disse.
Segundo ele, a Abras trabalha para fortalecer redes menores e evitar a concentração. “A concentração não é boa para ninguém, só para quem consegue consolidar”, afirmou Galassi. A associação tem buscado junto ao Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) soluções de desenvolvimento de pequenos negócios e dialogado com o recém-criado Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, chefiado por Marcio França, em busca de fomento.
Procurados, Pátria e Advent não comentaram.
Fonte: Estadão