Twitter Facebook Linkedin
Home » Notícias » No e-commerce, avanço virtual e bilionário

No e-commerce, avanço virtual e bilionário

A expectativa dos líderes varejistas é de que, em cinco anos, o comércio eletrônico dobre de tamanho e represente 20% das vendas

Por Domingos Zaparolli

Os indicadores de mercado apontam um avanço robusto do e-commerce nas vendas do varejo. Enquanto o setor como um todo cresceu 6,7% no primeiro semestre do ano, nas contas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as vendas dos varejistas pela internet avançaram 31% no mesmo período, somando R$ 53,4 bilhões, de acordo com a pesquisa Webshoppers divulgada em agosto deste ano pela E-bit/Nielsen. Se computadas as compras em lojas virtuais no exterior, que somaram R$ 9,6 bilhões, o total chega a R$ 63 bilhões.

No primeiro semestre de 2021, 6,2 milhões de consumidores realizaram pedidos pela primeira vez de forma digital. Foram feitas 100 milhões de encomendas, uma expansão de 7% em comparação com o mesmo período de 2020, com um tíquete médio 22% maior, de R$ 534. Em 2020, a E-bit/Nielsen calculou em 79,7 milhões os consumidores digitais no Brasil, que juntos realizaram compras no país de R$ 87,4 bilhões, total 41% superior ao registrado em 2019.

Em sites internacionais, os pedidos somaram R$ 22,7 bilhões, um crescimento de 76%. “A pandemia da covid-19 acelerou um processo de experimentação do comércio eletrônico que, até então, vinha ocorrendo de forma gradual”, diz Marcelo Osanai, líder de e-commerce da E-bit/Nielsen. Ele acredita que, no período pós-pandemia, possa até haver uma desaceleração no ritmo de expansão dos negócios eletrônicos, mas não o suficiente para reverter a tendência de crescimento constante do e-commerce. “As pessoas se acostumaram com a comodidade do varejo digital e agora fazem compras recorrentes, com valores maiores e em categorias de produtos que não eram usuais, como alimentos e artigos de pet shop”, afirma.

Líderes de importantes redes de varejo compartilham a percepção de evolução do mercado digital. “Esse é um caminho sem volta. O e-commerce vai dobrar de tamanho até 2025”, diz Roberto Fulcherberguer, presidente da Via (nova marca da Via Varejo, controladora das marcas Casas Bahia e Ponto Frio). Fernando Yunes, vice-presidente do Mercado Livre, segue a mesma linha: “Nossa expectativa é que o e-commerce, que hoje representa por volta de 10% das vendas totais do varejo, alcance algo como 20% em cinco anos”, diz. Estudo da Fundação Getulio Vargas com 745 empresas apurou que, no mês de junho, as vendas on-line, na média, alcançaram essa marca pontualmente, em função da pandemia.

Ao mesmo tempo que avança sobre o varejo físico, o e-commerce concentra negócios em marketplaces, shoppings virtuais que reúnem as vendas da loja-âncora, controladora da plataforma, e de lojistas parceiros, os chamados sellers. De acordo com a E-bit/Nielsen, as vendas por meio desses ecossistemas de negócios cresceram 52% em 2020 e agora respondem por 84% das transações totais.

A Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) contabiliza 126 marketplaces em atuação no Brasil, entre os operados por grandes grupos multimercados, os especializados, que atuam em segmentos específicos de consumo, e os regionais. “Não importa o tamanho do varejista, mesmo os grandes grupos que possuem lojas on-line próprias precisam estar num marketplace para ter relevância no e-commerce”, diz o consultor Alberto Serrentino, sócio-fundador da Varese Retail. “São plataformas que atraem um grande fluxo de tráfego, geram visibilidade aos negócios.”

O Mercado Livre é o marketplace com o maior número de sellers: são 12 milhões que oferecem mais de 300 milhões de produtos. A empresa, fundada em 1999, conta com parceiros internacionais de peso como Leroy Merlin, Nestlé, Ambev, Adidas, Samsung e Whirlpool. “Antes nós batíamos na porta das grandes empresas, hoje somos procurados”, diz Yunes. “Somos o maior shopping da América Latina, com 76 milhões de usuários em 18 países, não dá para ignorar”, afirma.

Em junho, o Mercado Livre fechou uma parceria com o Grupo Pão de Açúcar para ampliar as vendas virtuais de produtos de supermercados. “São itens de compras recorrentes que geram proximidade e fidelização do cliente”, diz Yunes. Uma vantagem para o Pão de Açúcar, que mantém seu canal próprio on-line, é a logística de entrega. Os produtos estarão disponíveis nos centros de distribuição do Mercado Livre e serão entregues em no máximo um dia em duas mil cidades, onde moram 70 milhões de brasileiros.

No segundo trimestre de 2021, o Mercado Livre registrou vendas de US$ 7 bilhões, com um crescimento de 39,2% em relação ao mesmo período do ano passado. O volume de vendas no Brasil cresceu 40% em dólar e já representa 55,9% da receita líquida da companhia. Os investimentos no país neste ano somam R$ 10 bilhões na ampliação da infraestrutura logística, com a construção de cinco novos centros de distribuição.

Carrefour, Magazine Luiza, Via, Americanas e Mercado Livre, pela ordem, estão entre as dez maiores do setor no ranking de Valor 1000 e são líderes no comércio eletrônico, mas a disputa pelo consumidor está cada vez mais acirrada, com a concorrência da americana Amazon, que já opera nove centros de distribuição no país, e o anúncio em agosto do grupo chinês Alibaba sobre a abertura de sua plataforma AliExpress para sellers brasileiros e a construção de seu primeiro CD no país.

Este cenário de disputa acirrada estimula movimentos agressivos dos grandes varejistas digitais, que buscam expansão por meio de aquisições e novas parcerias com sellers, movimentos realizados com o objetivo de ampliar e fidelizar a base de clientes e aumentar a recorrência de compras on-line.

O Magazine Luiza é um dos grupos mais ativos em aquisições de negócios digitais que ampliam a abrangência de seu marketplace. Nos últimos dois anos, a companhia adquiriu as plataformas de moda Netshoes, Zattini e Shoestock, a Época Cosméticos, a livraria Estante Virtual, a VIP Commerce, especializada na transformação digital de supermercados, e o food delivery AiQFome. Em julho, pagou R$ 1 bilhão pela KaBuM!, a maior plataforma de tecnologia e games do país. “São empresas que comercializam produtos com alta recorrência de compras virtuais e reforçam nosso posicionamento de ser o principal one stop shop do Brasil”, diz Leandro Soares, diretor-executivo de marketplace do Magalu.

Dos R$ 13,7 bilhões de vendas totais do Magazine Luiza no segundo trimestre deste ano, o e-commerce representou 72% dos negócios, ou R$ 9,8 bilhões. As vendas do marketplace, R$ 3 bilhões, apresentaram uma expansão de 63% na comparação anual.

No período, 23 mil novos sellers foram incorporados ao marketplace, que já contava com uma base de 56 mil vendedores. Segundo Soares, a maioria dos novos sellers são empreendedores que aderiram ao programa Parceiro Magalu, criado em 2020 para auxiliar pequenos varejistas a montar gratuitamente suas lojas virtuais. “Agora toda a estrutura que atende as vendas próprias da Magalu está sendo progressivamente oferecida aos sellers”, diz o executivo.

A Via, que no ranking ainda aparece como Via Varejo, também adota uma estratégia omnichannel, que integra as estruturas das lojas físicas, digitais e marketplace. “Entendemos que precisamos estar conectados com o consumidor em todos os possíveis pontos de contato”, diz o CEO Roberto Fulcherberguer.

As lojas físicas, mais de mil, atuam como “mini-hubs” para apoio logístico das vendas on-line e os cerca de 20 mil vendedores são estimulados a utilizar o Facebook e o WhatsApp como ferramenta de vendas tanto de produtos próprios da rede como de itens dos 53 mil sellers. No primeiro trimestre do ano, esse sistema, batizado na rede de “vendedor on-line”, foi responsável por 21% das vendas digitais, que totalizaram R$ 5,7 bilhões, o que corresponde a 56% do faturamento de R$ 10,3 bilhões no período.

Segundo Fulcherberguer, a Via detinha em maio 16,7% do marketshare do e-commerce brasileiro e a meta da companhia é alcançar uma participação de 20% em 2025, quando as vendas on-line deverão representar dois terços dos negócios da companhia.

Um passo importante para esta meta foi dado em julho, quando a carteira de pagamentos digitais BanQi, adquirida pela Via em 2020, recebeu a autorização para realizar empréstimos. O tradicional carnê da Casas Bahia agora também estará disponível de forma digital. “Experiência em crediário próprio e rentável só a Via tem”, diz Fulcherberguer.

Em abril, a Lojas Americanas e a B2W, detentora das marcas Submarino e Shoptime, anunciaram a combinação de seus negócios formando a Americanas S.A., com uma estrutura que une lojas digitais, 2.150 lojas físicas, 24 centros de distribuições e 204 unidades operacionais de logística. Em junho, o marketplace reunia 104,5 mil sellers, disponibilizando 110 milhões de itens para 49 milhões de clientes ativos.

“As lojas físicas integradas à plataforma digital conseguem atuar como centros avançados de compra, experimentação e distribuição, verdadeiros hubs urbanos”, diz Marcio Cruz, CEO da plataforma digital da Americanas S.A. Mais de 80% dos clientes digitais da companhia estão a menos de sete quilômetros de uma das lojas físicas, permitindo que 15% das entregas sejam feitas em até três horas. “No futuro, vamos fazer entregas de itens de conveniência em minutos”, diz Cruz.

A Americanas tem investido forte na oferta de produtos de consumo do dia a dia. Em 2020 adquiriu o Supermercado Now. Em maio, criou o Americanas Mercado. A categoria de itens de supermercado passou ao posto de maior em itens vendidos, com 54% do total no segundo trimestre. Em agosto, pagou R$ 2,1 bilhões para obter o controle da rede de hortifrútis Natural da Terra, um sinal claro de que a busca de produtos que geram recorrência e fidelizam os consumidores é a alma do negócio dos marketplaces.

Fonte: Valor Econômico