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IMC, Restoque e Inbrands têm conversa difícil com credores

Empresas de setores duramente afetados pela crise, a International Meal Company (IMC), de restaurantes; e as varejistas de moda Restoque e Inbrands estão desde os primeiros dias da pandemia tentando renegociar as condições de suas debêntures. Apesar de sofrerem pelo mesmo motivo, os casos são distintos.

A IMC, dona das redes Frango Assado e KFC, tinha boa situação de caixa e planos de expansão até ser atingida em cheio pela covid-19. A maioria de suas lojas fechou, já que muitas estão em shoppings e aeroportos. No fim de março, a empresa percebeu que, sem faturamento, não conseguiria cumprir compromissos financeiros (“covenants”, no jargão) de suas duas emissões – a relação entre dívida líquida e Ebitda não pode superar 3 vezes.

Ela expôs o problema e chamou os debenturistas para conversar. No primeiro encontro, em meados de abril, não houve quórum. No segundo, em 13 de maio, os credores apresentaram contraproposta e a expectativa é por um desfecho em nova assembleia, dia 27 de maio.

Em troca do perdão por não atingir o covenant, que poderia disparar o vencimento antecipado dos papéis, a IMC ofereceu um prêmio aos debenturistas. Nas emissões, os papéis saíram com taxas variando de CDI + 1,15% a CDI + 1,6%. A proposta da administração foi elevar para CDI + 4%.

Boa parte desses papéis está espalhada em mais de 20 fundos de crédito. As gestoras ficaram descontentes com a nova taxa e fizeram uma contraproposta: CDI + 9% ou 10% – patamar semelhante à marcação do papel na Anbima.

Na avaliação da maioria dos debenturistas, apurou o Valor, a proposta da administração da IMC beneficia os acionistas, em detrimento dos credores porque a taxa sugerida está muito aquém da negociada no mercado. “Se você ‘refinancia’ a dívida no meio da crise a um custo mais baixo que o mercado está trabalhando, está gerando ganhos adicionais para o acionista”, resume uma fonte. “Eles queriam limitar as concessões na linha de dívida para preservar o ‘equity value’ para os acionistas. O que os debenturistas pedem são condições mais equânimes, senão só o acionista ganha”, diz outra fonte.

Procurada, a IMC não deu entrevista alegando período de silêncio pela divulgação de resultado. A empresa tem como acionistas mais relevantes o Itaú e a família Carlos Wizard, além de gestoras como XP, NEO e Miles.

Apesar do pedido de taxas bastante altas, o que sinaliza uma forte reprecificação do risco de crédito da empresa, os debenturistas mantêm o discurso de que ela tem condições de se recuperar, assim que puder reabrir as lojas. A incerteza embutida na taxa é porque ninguém sabe quando será isso.

Se na IMC tudo vinha bem até a crise, os problemas do modelo de negócios da Restoque e da Inbrands já vinham de muitos anos antes do novo coronavírus. A pandemia só complicou as dificuldades, que vão desde a sazonalidade das vendas, erros de coleção, até a informalidade da cadeia de fornecedores. Com o fechamento de lojas, virar a chave para as vendas on-line também não é nada simples para elas. As peças, mais caras, não seguem um padrão que viabiliza a venda sem que o consumidor queira prová-las antes.

A Restoque, dona da Le Lis Blanc e Dudalina, teve um aumento de capital no fim do ano passado e já convivia com a alta da dívida líquida nos últimos trimestres. Mas nos últimos meses, a sensação no mercado era a de que vinha promovendo ajustes na operação que melhorariam resultados, mas veio a covid-19 e interrompeu esse processo. De acordo com fontes, a empresa precisaria de qualquer forma fazer um alongamento do perfil de sua dívida, muito concentrada no curto prazo. E, agora, já que teve de iniciar conversas para pedir adiamento de prazos, aproveita para endereçar um reperfilamento. Aqui a maior parte das debêntures está com bancos, mas há um percentual de cerca de 20% em alguns fundos de investimento.

A Restoque conseguiu jogar para 22 de junho pagamentos de remuneração e amortizações previstos para junho. A empresa informou que, por conta da pandemia, poderá reportar Ebitda negativo de R$ 111 milhões em 2020. E o faturamento deve cair 40%, para R$ 750 milhões.

Uma fonte ouvida pelo Valor aponta que o sucesso de qualquer plano vai depender de uma retomada significativa das vendas no início do segundo semestre – ou então um novo aumento de capital não poderá ser descartado. A Restoque, que tem os fundos de private equity Artesia, Advent e Warburg Pincus como principais acionistas, não deu entrevista.

Nenhuma das empresas teve tantas reuniões como a Inbrands, conhecida pela marca Richards – já foram meia dúzia de encontros desde abril. Há poucos papéis em fundos. Nos últimos anos, o controlador, Nelson Alvarenga Filho, veio comprando debêntures da empresa no mercado, por meio do fundo NAF, que reúne as iniciais de seu nome. Hoje, ele concentra 91,35% de uma emissão (o restante está com fundos) e 24% de outra (o restante desta está com bancos).

A Inbrands chamou debenturistas para liberar recursos de uma conta garantia, que reúne recebíveis de cartão de crédito, para usar em sua operação. O que conseguiu até o momento foi liberar metade dos R$ 13 milhões da conta para suas atividades. A outra metade foi para pagar a remuneração devida pela debênture até 8 de maio, além de antecipar pequeno percentual do pagamento programado para junho. O fundo NAF abdicou de receber a remuneração agora – vai receber os recursos só em 12 de julho, corrigidos por CDI + 1,5%.

Além da dívida, Alvarenga ficou sozinho no controle da companhia desde 2018 ao comprar participação que era da Vinci Partners. A questão agora é que no novo encontro, marcado para 29 de maio, os credores querem discutir sobre o vencimento antecipado ou não dos papéis. Há dois meses, os debenturistas dizem que precisam “discutir melhor o assunto”. A Inbrands não deu entrevista

Fonte: Valor Econômico