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A pandemia ficou para trás? As empresas que já vendem mais que no pré-Covid

29 empresas que viram suas vendas caírem no primeiro semestre de 2020 já estão vendendo mais do que antes da crise. Saiba como eles conseguiram

Por André Italo Rocha

Era uma segunda-feira, 16 de março de 2020, quando o Ibovespa, que já acumulava um tombo de 39% desde o recorde atingido em janeiro, despencou 14%, com direito a mais um circuit breaker na B3, o sexto em cinco pregões.

A data marca o início não só de medidas restritivas de circulação por conta da pandemia do novo coronavírus, como também um período inédito na história brasileira e mundial. Da noite para o dia, o Brasil foi aos poucos se fechando e a economia, parando.

Um ano e meio depois, a elite das companhias mais negociadas na bolsa brasileira está deixando esse período para trás, recuperando os níveis de vendas de antes da pandemia, segundo um levantamento da Economatica, realizado com exclusividade para o NeoFeed.

Das 81 empresas não financeiras mais negociadas na Bolsa, mais da metade, ou 43, viram a receita cair no primeiro semestre de 2020, em comparação ao mesmo período do ano anterior. Destas, 29 já apresentam faturamento superior ao registrado na primeira metade de 2019, o último ano antes da pandemia.

Para recuperarem de forma tão rápida os níveis de vendas pré-pandemia, essas empresas tiveram que se reinventar. E as soluções foram várias, desde a aposta no e-commerce, passando pela entrada em novos segmentos e até a diversificação internacional. Entre elas, estão Via, Alpargatas, Fleury, Usiminas e Equatorial.

O caso mais emblemático é o das empresas que atuam no varejo físico. Após assistirem ao esvaziamento das ruas durante os primeiros meses da pandemia, se viram obrigadas a investir no e-commerce para reencontrar o cliente e fazer o ponteira das vendas se mexer.

Algumas foram tão bem, como a Via, que as vendas digitais passaram a responder pela maior parte da receita. A varejista, dona das bandeiras Casas Bahia, Ponto e Extra, tinha 18% de vendas online no primeiro semestre de 2019. Nos seis primeiros meses deste ano, a proporção é quatro vezes maior: de 60,1%.

O faturamento da empresa, que havia caído 6% no primeiro semestre de 2020, alcançou R$ 15,423 bilhões na primeira metade deste ano, alta de 24,8% em relação a igual período de 2019. “Já estávamos em um processo de aceleração digital da companhia desde a nossa chegada”, disse ao NeoFeed o CEO da Via, Roberto Fulcherberguer, que assumiu o cargo em junho de 2019. “A pandemia nos fez pisar ainda mais fundo no acelerador.”

Um dos trunfos da Via foi a criação, logo na primeira semana da pandemia, do “Me chama no Zap”, uma estratégia comercial na qual os vendedores, trabalhando de casa, anunciavam no Facebook, para que os consumidores lhes procurassem no WhatsApp e lá a venda fosse concretizada.

“Era impensável, até então, um vendedor não ter a sua loja. Isso virou um case mundial para o Facebook”, afirma o CEO da Via, avaliada em R$ 18 bilhões. No marketplace, outro investimento do grupo na internet, o número de vendedores da Via saltou de 10 mil no início do ano para os atuais 70 mil.

Apostar no exterior também foi uma saída para as empresas. A Alpargatas, dona das marcas Havaianas e Osklen, já vinha se espalhando pelo mundo antes da pandemia, como parte de um plano de longo prazo, mas ampliou os esforços de internacionalização quando a crise chegou ao Brasil, um dos países mais afetados pela Covid-19.

A  companhia, avaliada em R$ 30,6 bilhões e com presença direta em 21 mercados, viu a participação dos outros países saltar de 28,4% no segundo trimestre de 2019 para quase 50% em 2021. Um avanço que ajudou a empresa a praticamente anular as perdas em 2020. Após uma queda de 26% no primeiro semestre do ano passado, a receita cresceu 39% em 2021 e já está 2,5% acima do nível de 2019, a R$ 1,996 bilhão.

“Estamos colhendo os frutos de decisões que tomamos há dois anos e meio”, diz Roberto Funari, CEO da Alpargatas, ao NeoFeed. “E a grande lição que tivemos na pandemia é que decisões sistêmicas e estratégicas, pensando no longo prazo, se potencializam em períodos mais desafiadores.”

A reabertura local já faz o mercado brasileiro brilhar de novo. No segundo trimestre deste ano, a receita líquida da Alpargatas cresceu 79,2% no Brasil, para R$ 578,9 milhões, acima da alta de 63,4% verificada no mercado internacional, para R$ 516,4 milhões.

Por aqui, o que tem ajudado a companhia é a diversidade de canais de venda, como ocorreu com a Via. “Hoje, nosso escopo vai desde uma loja de esquina, de bairro, até nossos canais online de venda direta e a presença em canais parceiros, como a Amazon, em todo o mundo.”

Por mais contraintuitivo que possa parecer, até quem é do setor de saúde sofreu com a pandemia. O grupo de medicina diagnóstica Fleury experimentou uma queda de 18,22% no faturamento durante o primeiro semestre de 2020, com as pessoas evitando fazer exames para não ter de sair de casa.

No segundo trimestre de 2021, o cenário já é outro. Ao mesmo tempo em que o número de testes para Covid-19 caiu ao menor nível desde o início da pandemia, para 544 mil exames, há um destravamento da demanda que estava reprimida para outros procedimentos. Além disso, a empresa buscou se lançar em outros tipos de negócios que começam a dar resultados.

“Ao longo do tempo, abrimos novas avenidas de crescimento e aumentamos os serviços que vão além da medicina diagnóstica”, afirma Jeane Tsutsui, presidente do grupo Fleury, ao NeoFeed. “Temos uma visão que cada vez mais as pessoas estão retomando os seus cuidados de saúde.”

O resultado é que o faturamento da companhia no segundo trimestre de 2021 foi de R$ 1,005 bilhão, o maior da história para um período de três meses e o segundo na casa bilionária. No semestre, a empresa acumula receita de R$ 1,825 bilhão, alta de 27,7% em relação à primeira metade de 2019.

Jeane Tsutsui, presidente do grupo Fleury

Um exemplo da diversificação do grupo são os investimentos em clínicas especializadas, como as de oftalmologia, de infusão de medicamentos, de fertilidade e ortopédica. Essa nova área já contribuiu com 4% do faturamento do grupo. As teleconsultas, que não existiam da pandemia, já superaram os 600 mil atendimentos. “Antes, eram 3 mil teleconsultas por mês”, diz Jeane. “Agora, são 3 mil por dia.”

Serviços que cresceram durante a pandemia seguem em ritmo acelerado. É o caso do atendimento móvel, que faz coletas domésticas. No segundo trimestre, ele representou 8,1% da receita total do grupo e cresceu pelo quinto trimestre consecutivo. “O atendimento móvel, isoladamente, já representa o equivalente a 25 unidades de atendimento”, diz Jeane.

As novas avenidas de crescimento, diz Jeane, não significam que o Fleury deixou de investir em medicina diagnóstica. A companhia quer seguir avançando nessa área. E uma das estratégias é via aquisições. Em junho deste ano, por exemplo, a rede entrou no Espírito Santo com a compra dos laboratórios capixabas Pretti e Bioclínico, por R$ 193,1 milhões e R$ 122 milhões, respectivamente.

Além dos esforços que cada empresa fez para salvar o próprio negócio, qualquer ajudinha da conjuntura também vai bem. Nesse sentido, alguns setores prejudicados no início da pandemia acabaram vendo a sorte mudar de lado ao longo da travessia. Foi o caso da siderurgia.

As três maiores empresas do ramo e listadas na B3 – CSN, Usiminas e Gerdau – sofreram com a paralisação das indústrias que demandam aço, como as montadoras, e só foram começar a se recuperar na segunda metade de 2020, com a primeira reabertura da economia. No primeiro semestre deste ano, todas já superam o faturamento de igual período de 2019, apesar da segunda onda da pandemia, entre março e abril.

Segundo o analista Antonio Heluany, sócio da Taruá Capital, o setor tem se beneficiado principalmente do preço. Com a alta da cotação do aço no mercado internacional, as empresas conseguiram repassar a inflação para os seus clientes, sem prejudicar a demanda, que estava reprimida, em razão da primeira onda da pandemia, no ano passado.

“Quando as indústrias (que demandam aço) fecharam, não se sabia a extensão da pandemia”, diz Heluany. “Mas, quando a demanda do consumidor voltou, a oferta ainda não tinha voltado. Isso gerou uma demanda reprimida, o que fez com que a utilização da capacidade de produção de aço subisse muito.”

A Usiminas, por exemplo, uma das investidas da Taruá, praticou um aumento médio de 88% nos preços, entre o segundo trimestre do ano passado e o segundo trimestre deste ano. “A margem da companhia saiu de 11% para 22%, para níveis que não vínhamos desde antes da crise internacional de 2008”, afirma o analista da Taruá.

O setor que mais deu a volta por cima, porém, foi o de energia. Das 29 empresas que se recuperaram, seis são do ramo: Neoenergia, Energisa, CPFL, Equatorial, Light e Cemig. Para esse grupo, no entanto, o risco de uma crise energética e de racionamento pode colocar um freio na recuperação em 2022.

Aquelas empresas que atuam na distribuição foram as que conseguiram se recuperar com mais velocidade, afirma Victor Natal, estrategista de ações para pessoa física do Itaú BBA. “As tarifas de energia estão mais altas, o volume cresceu e a inadimplência caiu”, afirma Natal.

A Equatorial, por exemplo, registra expansão de 12% no faturamento do primeiro semestre, em relação a igual período de 2019, para R$ 8,6 bilhões. “A companhia trouxe resultados muito fortes e tem capacidade comprovada de recuperar operações depois de adquiri-las, como no caso da Celpa (Centrais Elétricas do Pará)”, diz o Itaú BBA, em um relatório. “A empresa tem mostrado interesse em diversificar suas atividades e o mercado deve ficar atento à possível entrada no segmento de saneamento, por meio de leilões.”

A lista de empresas que mais do que compensaram as perdas de receita na crise também conta com PetroRio, Braskem, Grupo SBF(Centauro), Cosan, Randon, Locamerica, Petrobras, Petrobras Distribuidora, Ambev, CCR, Cyrela, Ultrapar, Rumo, Localiza, Porto Seguro, Tim e IMC.

Se a retomada das companhias é sustentável ou não, a resposta vai variar conforme o setor e a situação de cada uma. Mas parece haver um consenso, entre analistas e executivos, de que e-commerce, pelo menos, deve experimentar uma desaceleração, após a explosão vista na pandemia.

“E o ambiente competitivo será maior”, prevê Natal, do Itaú BBA. “As empresas de e-commerce devem seguir entregando, mas agora a concorrência não será mais só entre elas, mas também com o varejo físico, com as pessoas voltando às ruas.”

Com o avanço da vacinação e as economias sendo reabertas novamente, Funari, da Alpargatas, reconhece que deve haver um reequilíbrio “natural” entre os canais, mas ressalta que o ambiente online não voltará a ser o que era. “As vendas digitais estão se estabilizando em um patamar muito superior ao que tínhamos há dois anos”, diz o CEO da Alpargatas.

Há, ainda, o risco de que a pandemia volte a piorar. Mas as empresas, já “vacinadas” por duas ondas, querem estar preparadas para o que vier. “Tenho esperança em uma recuperação da economia. Já vemos alguns sinais. Mas estamos cuidadosos e preocupados para sermos cada vez mais adaptáveis a todos os cenário”, disse Fulcherberguer, da Via.

Fonte: Neofeed