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Entrada do WhatsApp em pagamentos digitais pode acelerar tecnologia no Brasil, mas existem desafios, dizem especialistas

Inovações tecnológicas na área financeira foram grandes no Brasil nos últimos anos, mas ainda precisam lidar com a barreira dos que não têm conta e a pouca adesão nas classes mais baixas

O anúncio do WhatsApp de que vai fornecer meios de pagamento e transferência de dinheiro dentro do aplicativo é um sinal do amadurecimento do mercado de pagamentos digitais no Brasil. Isto porque essa forma de pagamento vem crescendo nos últimos anos no mundo.

Ela é responsável por transferências entre carteiras digitais, pagamentos em aplicativos de transporte e de pedidos de comida, e por inovações que permitem pagar com o celular em lojas e até no transporte público.

Diversas empresas de tecnologia, relacionadas a finanças e pagamentos, cresceram nesse período. Os pagamentos por aplicativo em lojas físicas cresceram de 4% para 21% entre 2018 e 2020, de acordo com a Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC).

Segundo informações da consultoria especializada em aplicativos móveis App Annie, o Brasil é um dos países que têm uma base fiel de usuários de apps de carteira digital de bancos, ao lado de Indonésia, França, Alemanha, Canadá, Rússia e Reino Unido.

Pagamentos por aproximação, com celular, relógio ou pulseiras, cresceram 456% no país no 1º trimestre de 2020, comparado com o mesmo período do ano passado, aponta a Associação Brasileira das Empresas de Cartão de Crédito e Serviços (Abecs).

Foram movimentados R$ 3,9 bilhões em transações deste tipo.

Durante a pandemia de coronavírus, houve maior adoção nas empresas por tecnologias de pagamento digital e on-line. A SBVC aponta que 58% das empresas adotaram novas estratégias desde março, com foco em pagamentos por aplicativos, parcerias com bancos e adoção de carteira digital ou QR Code.

Público restrito

Apesar do crescimento dos últimos anos e das inovações trazidas pelas fintechs, essa ainda é uma realidade mais próxima das classes mais altas.

O instituto de pesquisa Locomotiva traz dados semelhantes: 45 milhões de pessoas ainda não têm conta bancária, 86% deles estão nas classes C, D e E.

Por causa disso, essas classes recorrem principalmente a amigos, familiares e até ao conhecido “fiado” como soluções de crédito, enquanto as instituições financeiras e as novas tecnologias de pagamento são mais usadas nas classes mais altas, apontam os dados.

Segundo os dados do Locomotiva, 71% dos brasileiros preferem pagar as contas em dinheiro vivo, porque dessa maneira recebem descontos, têm controle financeiro ou acham mais seguro.

“As pessoas recebiam em dinheiro vivo e pagavam em dinheiro vivo, a pandemia já começou a mudar isso”, explica Renato Meirelles, presidente do instituto Locomotiva.

Para o especialista, o atual momento pode mudar esse panorama porque alterou a maneira como muita gente passou a receber: profissionais autônomos, o auxílio emergencial do governo e até as merendas pagas por alguns municípios passaram a vir por transferências digitais.

WhatsApp ‘larga na frente’

Já o WhatsApp é parte fundamental da infraestrutura de comunicações e negócios no Brasil e a inclusão de pagamentos na plataforma lembra o movimento de aplicativos chineses, de criar novas aplicações dentro de uma aplicação, afirma Ronaldo Lemos, advogado especializado em tecnologia.

“Nesse caso, o WhatsApp já tem algo precioso, que é o efeito rede. A conveniência de usar essa mesma rede também para pagamentos é muito poderosa e pode levar a uma convergência para dentro do ecossistema do WhatsApp”, diz Lemos.

O advogado conhece de perto o sistema de pagamentos digitais na China, onde o WeChat é uma das principais formas de transferir dinheiro. Para ele, o projeto do WhatsApp abre as portas para muitas possibilidades de uso de tecnologias de pagamento, incluindo carteiras digitais e moedas virtuais. “Um exemplo é a Libra, que o próprio Facebook vem desenvolvendo“.

Para Renato Meirelles, presidente do Locomotiva, a iniciativa do WhatsApp pode sinalizar que, no futuro, teremos a adoção mais ampla de tecnologias de pagamento e transferências, com envios que não passem pelo sistema bancário.

“Quando a gente olha os exemplos no mundo, o que a gente vê é que as tecnologias têm maior adesão quanto mais fazem parte do dia a dia das pessoas. E o WhatAapp é o aplicativo mais presente no dia a dia das pessoas. A chance de democratização dos meios de pagamentos é gigantesca”, afirma.

Com uma adoção maior de meios de pagamentos digitais, o Brasil pode passar a ter um cenário em que é mais fácil pagar e estar vinculado a instituições financeiras.

Esse processo de inclusão financeira, com acesso a ferramentas úteis e acessíveis, é descrito pelo Banco Mundial como uma forma de redução da pobreza.

Regulação do Banco Central

O Banco Central (BC) mantém uma postura de diálogo com as empresas do setor e está traçando uma série de diretrizes para regular o mercado de pagamentos digitais.

Uma das partes desse processo é o chamado “open banking”, um sistema de compartilhamento de dados, informações e serviços financeiros pelos clientes bancários em plataformas de tecnologia (somente mediante autorização), para que possam ter acesso a melhores taxas, prazos e serviços financeiros.

A previsão é que o sistema comece a funcionar já em novembro.

O BC também tem um projeto para criar o Sistema de Pagamentos Instantâneos, chamado de PIX. A ideia é criar um ambiente mais fácil para realizar pagamentos rápidos e seguros e o BC já se manifestou sobre incluir os pagamentos do WhatsApp nesse sistema.

“O BC está acompanhando a iniciativa do WhatsApp e avalia que há grande potencial para sua integração ao PIX”, disse o órgão em nota.

Mas o regulador deixou claro que não vê com bons olhos a concentração do mercado em agentes específicos. No último número divulgado, em 2017, o WhatsApp tinha 120 milhões de usuários no país.

“Entretanto, o BC considera prematura qualquer iniciativa que possa gerar fragmentação de mercado e concentração em agentes específicos. O BC vai ser vigilante a qualquer desenvolvimento fechado ou que tenha componentes que inibam a interoperabilidade e limite seu objetivo de ter um sistema rápido, seguro, transparente, aberto e barato.”

Para Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper, o Banco Central tem tido uma abordagem de parceria, com negociação junto às fintechs, ao invés de proibição, estimulando o mercado. Mas afirma que é preciso que o regulador acompanhe.

“Chegar no cliente com velocidade faz diferença. O WhatsApp já tem o potencial cliente, milhões de pessoas usam o aplicativo. É diferente de montar uma fintech e ter que conquistar milhões de clientes”, explica.

Fonte: G1.globo.com