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O varejo brasileiro em 2019 e perspectivas para 2020

Por Alberto Serrentino*

O varejo vive em 2020 um dos períodos mais desafiadores de sua história em âmbito global, com impacto direto no mercado brasileiro. A pandemia provocada pela Covid-19 levou a distanciamento social, fechamento de lojas, mudanças de rotinas e protocolos operacionais, migração repentina de demanda, mudança de padrões de consumo e compras e aceleração na transformação digital do varejo. No meio deste processo, finalizamos a edição 2020 do Ranking das 300 Maiores Empresas do Varejo Brasileiro, com dados de empresas com faturamento anual superior a R$ 300 milhões em 2019. Esta é a 5ª edição realizada pela SBVC (Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo), retrata as grandes empresas do varejo brasileiro, que em 2019 responderam por 43% do mercado. Dentre elas há 138 empresas com faturamento anual superior a R$ 1 bilhão, 18 com mais de 1.000 lojas em operação no País, 40 com mais de 10.000 funcionários e 32 de capital aberto.

Desempenho de vendas – os dados das últimas edições do Ranking da SBVC mostraram resiliência do médio e grande varejo à crise de 2015-2016, capacidade de superação e aceleração das empresas a partir de 2017, confirmada em 2018 e 2019. Apesar da economia brasileira não ter conseguido retomar o crescimento sustentável, as maiores empresas de varejo do Brasil mantiveram trajetória de crescimento e ganho de participação de mercado. Números referentes a 202 empresas do ranking revelam crescimento nominal consolidado em 2019 de 10% sobre 2018, enquanto o varejo brasileiro cresceu 5% em valores nominais. Para 90% das empresas desta base houve crescimento nominal de vendas e em 73% delas acima da inflação.

Expansão – as maiores empresas do varejo brasileiro vêm mantendo expansão consistente. Em amostra de 205 empresas do Ranking, houve aumento médio de 4,3% na base de lojas, número similar ao de 2018. Em 64% dessas empresas houve aumento de base de lojas no ano passado.

Produtividade – o varejo enfrentou a crise de 2015-2016 com agenda de produtividade e eficiência. A superação da crise não alterou a trajetória e em 2019 houve novo aumento de venda média por loja de 4,5% para base de 197 empresas, contra inflação de 4,3% no período. Já a venda média por funcionário aumentou 3,7% em base de 173 empresas, patamar inferior ao da inflação no período.

Concentração e Regionalismo – os dados do Ranking revelam características estruturais do varejo brasileiro. O mercado brasileiro é complexo e apresenta elevados graus de concentração demográfica e geográfica. A consequência disso para o varejo se dá no baixo nível de concentração e peso relevante do varejo regional. As 10 maiores empresas de varejo do Brasil detêm somente 17% do mercado, as 50 maiores 29% e as 100 maiores apenas 34%.

Em relação à dispersão regional, 42% das empresas só possuem operação em um estado e 54% em até 5 estados. Somente 12% das maiores empresas de varejo do Brasil operam nos 27 estados do País. Apesar de existirem diversas redes com presença nacional, o varejo brasileiro ainda é dominado por empresas de atuação regional.

e-commerce – a penetração do comércio eletrônico em relação ao varejo brasileiro em 2019 foi de apenas 3,8%. Os dados do Ranking permitem compreender o baixo grau de penetração: apenas 54% das empresas vendem online. O atraso é muito superior no segmento de supermercados, onde apenas 28% das grandes empresas possuíam operação de comércio eletrônico no ano passado. No varejo não-alimentar, 77% das maiores empresas já vendem online, mas pode-se reforçar a avaliação que, em relação à digitalização do varejo, os consumidores brasileiros estavam se movimentando com maior velocidade que as empresas. A aceleração na transformação digital e digitalização das vendas do varejo como reação à Covid-19 deve levar a mudança nos indicadores em 2020.

Um aspecto relevante é o quanto o ecommerce já representa das vendas de empresas referências em seus segmentos de atuação: livrarias (Cultura 55% e Saraiva 33%); eletroeletrônicos (Magazine Luiza 38%, Colombo 27% Novo Mundo 23% e Via Varejo 20%); moda (Soma 22%, SBF/ Centauro 18%, Reserva 14% e Arezzo 13%), perfumarias e farmácias (Panvel, Araújo e Boticário 10%)

Marketplaces, plataformas e ecossistemas – os grandes operadores globais de ecommerce (como Amazon, Walmart e JD) vêm progressivamente incorporando marketplaces e investindo em aumento de participação no negócio. No Brasil, os 5 maiores varejistas online já têm operação de marketplace (Magazine Luiza, B2W, Dafiti, Via Varejo e Carrefour). Os grandes operadores de marketplaces vêm transformando seus modelos de negócio para tornarem-se plataformas e ecossistemas. Nesta configuração, criam-se complementaridades entre varejo físico, ecommerce, marketplaces, serviços financeiros, meios de pagamento, mídia e entretenimento, gravitando em torno de clientes e dados e suportados por tecnologia proprietária e infraestrutura logística. Este é o modelo de Amazon, Alibaba, JD, Tencent e Google. A estratégia de Walmart (globalmente), Magazine Luiza, B2W, Carrefour, GPA, Mercado Livre e Via Varejo aponta para plataformas e eventuais ecossistemas. Diversas empresas anunciaram projetos de implantação marketplaces especializados, como C&A, Renner, Riachuelo, Ri-Happy e Arezzo. O Facebook, ao transformar o WhatsApp em canal de vendas e carteira digital e ao implantar o Facebook Shops, também avança na direção do modelo. As empresas que não tiverem capacidade de se tornarem plataformas ou ecossistemas deverão aprender a se relacionar com eles.

Os dados do Ranking da SBVC confirmam que as principais empresas do varejo brasileiro foram resilientes durante a crise, reagiram com ajustes e foco em eficiência e produtividade e estão retomando seus processos de expansão. A retomada mais robusta no crescimento depende de estabilidade política e de avanços estruturais que recuperem investimentos, confiança, levem a queda de desemprego, aumento de renda e capacidade de demanda e endividamento por parte dos consumidores brasileiros. O estudo evidencia aspectos importantes do varejo brasileiro, como o baixo grau de concentração, o peso do varejo regional, a relevância do franchising e o crescimento do e-commerce e dos marketplaces. Finalmente, expõe o atraso até o ano passado – principalmente no varejo alimentar – em desenvolvimento de canais digitais.

Os dados referentes a 2020, que estarão retratados na edição 2021 do Ranking, devem mostrar crescimento de empresas em segmentos essenciais (supermercados, farmácias, pet e materiais de construção), crescimento em algumas empresas do segmento de bens duráveis e queda nominal em diversas empresas de segmentos não essenciais. Várias empresas deverão fechar o ano de 2020 com menos lojas do que iniciaram. Haverá um crescimento geral nas vendas digitais e na penetração sobre as vendas totais das empresas, multiplicação e expansão de marketplaces, possível aumento na concentração e provável aumento significativo no número de empresas de capital aberto.

A Covid-19 deixará impacto negativo sobre a economia, o mercado de trabalho, consumo e varejo, além das dolorosas consequências humanitárias. Porém, deixará também legados positivos, dentre os quais se destacam a aceleração na transformação digital das empresas, com evoluções em cultura, digitalização de processos, incorporação e mudança de papel da tecnologia, maior foco em clientes e dados, diversificação de modelos de venda e mudanças organizacionais. Haverá ganhos em produtividade, um novo ciclo de ajustes em despesas e busca de eficiência (após o de 2015-2016), racionalização no parque de lojas e evolução nos modelos de negócios. As empresas vão descobrir que não é mais o cliente que vai à loja, é a loja que vai ao cliente.

Empresas sólidas, com fundamentos saudáveis, visão de stakeholders, equilíbrio na liderança e capacidade de adaptação e reação ganharão participação de mercado. O encolhimento e aumento de mortalidade entre empresas mais frágeis deve provocar redução de oferta e oportunidades para as empresas mais resilientes ou novas entrantes que identifiquem oportunidades no cenário atual.

*Alberto Serrentino – fundador da Varese Retail, vice-presidente e conselheiro deliberativo da SBVC

Fonte: LinkedIn