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Paquetá enxuga estrutura para voltar a crescer

Foram quase três anos de reorganização operacional e financeira para enfrentar um grave ciclo de redução dos níveis de produção e vendas e um pesado endividamento que ameaçavam o futuro do grupo calçadista Paquetá, com sede em Sapiranga (RS). Agora a empresa está menor do que no início da reestruturação, mas seu comando diz que o “ponto de inflexão” ocorreu neste ano e que é possível voltar a crescer de maneira mais sustentável a partir de 2019.
A avaliação é do presidente executivo da Paquetá, Henning von Koss, que assumiu o cargo no início de outubro.

Os últimos anos foram críticos. O mercado doméstico e as exportações aos Estados Unidos encolheram. Os EUA representavam a maior parte do faturamento da companhia, que sofreu com rivais asiáticos e o câmbio.

A receita bruta caiu de R$ 2,5 bilhões em 2015 para R$ 2 bilhões previstos neste ano. A produção baixou de 15 milhões para 9,7 milhões de pares de marcas próprias e de terceiros, entre elas Adidas, Puma e Asics. No mesmo período, o número de funcionários foi de 18 mil para 12,7 mil, no Brasil e na Argentina.

O endividamento financeiro cresceu e chegou à relação atual de sete vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda). O valor absoluto não é revelado, mas a intenção é reduzi-lo para três vezes o Ebitda nos próximos dois anos. Luiz Augusto Polacchini, que assumiu em junho área financeira, diz que a empresa está negociando o alongamento das dívidas e a redução dos juros com bancos credores.

A Paquetá também prepara a venda de um pacote de ativos, não ligados à produção, para amortizar parte do passivo. “O potencial de desinvestimento equivale à metade da nossa dívida”, calcula Von Koss, executivo com passagens por empresas como a alemã Bayer e a brasileira Amil.

Os ativos incluem uma área de 7,7 mil metros quadrados perto do centro de Porto Alegre e do aeroporto da cidade, desocupada em setembro com a transferência de escritórios comerciais para o centro de distribuição em Canoas, na região metropolitana. Pavilhões desativados no entorno das fábricas e outros imóveis podem ser vendidos. Controlado pelas famílias Leist, Strassburger e Bacher, o grupo tem um braço imobiliário.

A crise financeira nesse período chegou a afetar os pagamentos aos fornecedores, o que provocou falta de produtos nas lojas multimarcas Paquetá, Paquetá Esportes, Gaston e Esposende e queda de até 10% nas vendas em alguns momentos.
Agora, as contas estão em dia, assim como o pagamento de tributos e obrigações trabalhistas, diz o diretor financeiro, que foi executivo da Gerdau por 30 anos antes de chegar à calçadista.

Pelo lado operacional, além do corte de 30% nos funcionários, o grupo fechou a fábrica que funcionava na República Dominicana. Havia sido inaugurada em 2010 para produzir calçados para outras empresas nos Estados Unidos. As linhas foram absorvidas por unidades no Brasil, que ficam em Sapiranga e Teutônia (RS), Ipirá (BA), Itapajé, Uruburetama e Pentecoste (CE).

A fábrica na Argentina, onde 700 funcionários montam 700 mil pares de tênis Adidas por ano para o mercado local, segue operando. Mas seu futuro vai depender dos desdobramentos da crise no país.

No varejo, que representa 40% do faturamento, a empresa reduziu o número de lojas multimarcas das bandeiras Paquetá, Paquetá Esportes, Gaston e Esposende de 190 para 167 no país desde 2015.

A rede de franqueadas, que vendem calçados de marcas próprias da Paquetá, permaneceu estável, em torno de 85 unidades, mas o portfólio de linhas foi enxugado com a saída das marcas Ateliermix e Lilliy’s Closet. Permanecem a Capodarte e a Dumond, de calçados femininos, e a Ortopé, de produtos infantis.

Com a reestruturação encaminhada e processos operacionais redesenhados com o apoio de uma consultoria externa, a perspectiva mudou. A economia brasileira dá sinais positivos e o cenário para exportar aos EUA também melhorou, a partir da redução de impostos sobre calçados brasileiros anunciada neste ano. “A demanda já começou [a aumentar] em 2018 e as fábricas estão operando a pleno vapor”, afirma o presidente.

De acordo com ele, a relação entre mercado interno e externo está mais equilibrada, com 60% das vendas para o Brasil e 40% para exportação. A produção da companhia no Brasil deve crescer 5% em 2019. Para a receita bruta, a previsão é de alta de 8%, assim como para as vendas das lojas multimarcas, que devem avançar entre 8% e 9%.
Em 2017 e 2018 os ajustes na estrutura já permitiram a volta do Ebitda positivo e, somado à perspectiva de acerto com os bancos credores, o desempenho projetado para 2019 deve criar as condições para o retorno do lucro líquido, adianta Von Koss. “A geração de caixa operacional já foi positiva em 2017 e está melhorando neste ano, mas o grande crescimento virá no ano que vem”, diz.

Num prazo mais longo, a Paquetá prevê aumentar a base de franqueadas das 85 atuais para 150 em três anos, com seleção e treinamento mais criteriosos dos lojistas. A rede multimarcas está em um tamanho “adequado”, diz Polacchini.
O retorno ao faturamento de 2015 é meta para os próximos cinco anos. Segundo Von Koss, isso é possível com a estrutura atual e alguns ajustes como aumento de produtividade e de turnos de trabalho. Mas o principal objetivo é alcançar uma receita de R$ 2,5 bilhões “saudável”, com geração de caixa, lucro líquido e dívida controlada para deixar os tempos sombrios para trás.
Fonte: Valor Econômico