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É hora de reforçar o diálogo

Ex-embaixador do Brasil na China, Marcos Caramuru mostra as lições que o país mais populoso do mundo ensina na luta contra o coronavírus

 

Na manhã deste sábado (04/04), Alberto Serrentino e Eduardo Terra, sócios da BTR-Varese, fizeram uma live com Marcos Caramuru, embaixador brasileiro na China de 2016 a 2018 e atualmente embaixador da InvestShanghai, a plataforma de atração de investimentos da cidade de Shanghai. Durante a conversa, Caramuru falou do cenário dos negócios na China neste momento em que o país começa a sair da crise do Covid-19, o impacto sobre a vida cotidiana, as ações do governo chinês para lidar com a crise e manter os negócios em operação, as relações Brasil/China e as lições que podemos aprender com quem já passou pelo coronavírus do outro lado do mundo.

A live está disponível no canal da BTR-Varese no YouTube. A seguir, os melhores momentos:

 

Reprodução YouTube

O momento atual da economia chinesa

O coronavírus provocou uma parada na economia chinesa. “Houve indicadores muito negativos em janeiro e fevereiro, com forte queda nas vendas do varejo, da indústria, dos negócios em geral. Esse é um cenário completamente diferente do normal para um país que crescia 6% ao ano”, comenta Caramuru. Segundo ele, os indicadores começaram a se recuperar em março: o índice de produção industrial, por exemplo, saltou de 35,7 para 52 pontos, voltando para uma zona positiva. Por outro lado, as microempresas têm muitos problemas e ainda é difícil chegar a elas, pois estão à margem do sistema bancário.

Enquanto cidades como Shanghai e Pequim estão voltando aos negócios, a entrada de estrangeiros continua vetada e há sinais de que a província de Hubei vem tendo casos de reincidência do vírus. “De forma geral, a China já está dando sinais de que pode se recuperar, mas ainda é difícil fazer projeções completas e paira a ameaça de um retorno do Covid-19”, pondera.

 

O que mudou na rotina das empresas e na vida das pessoas?

A vida das pessoas está se normalizando, mas não será como era antes da crise. Um exemplo é o monitoramento constante do fluxo de público, com forte uso de tecnologia. Sistemas baseados em Inteligência Artificial e no monitoramento do uso dos smartphones permitem identificar, por exemplo, por onde cada indivíduo andou e a possibilidade de exposição ao vírus. Com esses dados, cada chinês é classificado em cores: verde para quem pode circular livremente, amarelo para quem deve ficar em quarentena em casa e vermelho para quem deve procurar um hospital. “Não é um mecanismo 100% aceito, mas neste momento tem havido uma redução da privacidade em favor da segurança coletiva”, diz Caramuru.

Para ele, esse será um movimento global. “O uso de máscaras, períodos de isolamento social, uma menor exposição a aglomerações e uma atenção maior à saúde são algumas condicionantes que irão acontecer no mundo todo. A vida vai voltar a uma normalidade que será diferente da que tínhamos antes”, acredita.

 

O governo impulsiona a economia

Para manter a economia em funcionamento, o governo chinês passou a usar uma série de recursos que viabilizam um maior volume financeiro para orçamentos municipais e estaduais. Isso representa uma reversão das políticas fiscais até então adotadas. “Até esta crise, o grande tema econômico era a disciplina fiscal, com redução dos gastos dos governos locais e o saneamento dos bancos locais, muitos com carteiras problemáticas desde a crise de 2008. A China aceitou o fato de que será preciso operar com déficit fiscal maior e viabilizar recursos para serem injetados no mercado”, afirma o ex-embaixador.

Ao mesmo tempo, o governo vem adiando ou eliminando completamente o recolhimento de impostos e obrigações, diminuindo a pressão financeira sobre as empresas. Perdas financeiras decorrentes da crise poderão ser deduzidas do Imposto de Renda das empresas por oito anos e aquelas companhias que podem produzir equipamentos médicos para o tratamento das pessoas atingidas pelo vírus foram isentas do pagamento de Imposto de Renda.

O coração do problema financeiro está, porém, nas pequenas e médias empresas. “Elas não têm acesso a recursos financeiros, vivendo das receitas do dia a dia. O governo tem estimulado os bancos a emprestar mesmo que elas não tenham pago suas obrigações anteriores. Existe um forte esforço em fazer com que o dinheiro circule e chegue aos pequenos negócios, que, no conjunto, são grandes empregadores”, explica Caramuru.

 

O novo comportamento do consumidor

Na China, mesmo com limitações, os shopping centers estão reabrindo. O consumidor, porém, assumiu um comportamento ainda mais conservador. “O chinês costumava poupar metade do seu salário, mas há indícios de que está poupando ainda mais, mesmo com a reabertura do varejo”, conta. A possibilidade do aumento do desemprego reduz a confiança dos consumidores e faz com que eles demorem mais para retomar o ritmo de consumo pré-vírus.

 

Uma nova era de globalização

Na opinião de Caramuru, esta crise terá um impacto relevante sobre os negócios em nível global. Haverá uma tendência natural ao fechamento dos mercados, a visões nacionalistas e a uma procura maior por governos com tendências intervencionistas. “O pensamento liberal será muito afetado pela ideia de que os governos precisam estar presentes. Ao mesmo tempo, os mecanismos de interação global estão muito desgastados e a ideia de uma grande cooperação econômica internacional vem se enfraquecendo”, analisa.

Para ele, ainda não está claro se as cadeias de valor irão se deslocar e ser menos globalizadas. “Isso depende muito da reação das empresas na cadeia de valor, mas a ideia da globalização como uma força de estímulo à economia vai sair muito afetada de todo esse processo”, comenta.

Ao mesmo tempo, Caramuru se diz surpreso com a passividade do resto do mundo em relação à guerra comercial entre China e Estados Unidos. “O acordo comercial recentemente assinado contraria princípios da Organização Mundial de Comércio (OMC), pois garante um diálogo privilegiado entre os dois países em vários setores. Me surpreende o silêncio do mundo em relação a isso. Os mecanismos globais estão sendo afetados, China e EUA brigam e se acertam, e os demais ficam passivos. Isso não contribui para a valorização da globalização”, avalia Caramuru.

 

E o Brasil?

O Brasil vive um momento difícil e complexo, mas pode não ser tão impactado quanto outros mercados. “Não estamos tão conectados às cadeias de suprimento globais e, por isso, não seremos tão afetados”, afirma. Ele não vê um impacto relevante sobre a exportação de commodities, por exemplo. “Podemos até nos favorecer, pois a China estará mais aleta para manter estoques estratégicos de produtos”, diz. Em relação às exportações de minério de ferro, outro item importante da balança comercial brasileira, a retomada da construção civil na China deverá favorecer as vendas.

Para Caramuru, a grande liquidez disponível no mundo em um cenário de crescimento negativo, aliado à característica empreendedora dos brasileiros, pode nos favorecer. “A demanda estará comprimida pelo desemprego e teremos um cenário de falta de confiança. É um grande desafio, mas também traz grandes oportunidades”, analisa.

 

Lições da China para o Brasil

Do ponto de vista da saúde, a grande lição chinesa para lidar com o vírus é a capacidade de testar as pessoas e, com isso, identificar rapidamente os focos de disseminação. “A China testou muito, identificou quem estava próximo do vírus e agiu de forma decisiva para impedir que a doença se espalhasse. Mas para isso é preciso ter os meios, como os kits para teste, que não é simples de fazer”, pondera.

Em sua avaliação, a lição mais importante que fica dessa crise é de política externa. “Assim como as sociedades precisarão cooperar mais entre si, será preciso que os países cooperem mais entre si, e não só os grandes. O Brasil pode ter um papel importante, pois sempre foi respeitado pelo diálogo”, afirma. Para ele, os países precisam buscar meios de cooperação independentes, não necessariamente vinculados ao alinhamento internacional com outros países, em um ambiente mais aberto ao debate. “Essa pode ser uma oportunidade de retomar nossa vocação de liderança internacional”, completa.

 

Confira aqui a íntegra da live de Eduardo Terra e Alberto Serrentino com Marcos Caramuru.

 

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Fonte: Redação BTR-Varese