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Americanas e B2W traçam o futuro sob pressão

Enquanto os executivos mencionavam sua confiança nos negócios, os papéis no pregão caíam mais do que o Ibovespa e as demais varejistas com ações na B3. Juntas, as duas companhias perderam em valor de mercado R$ 4,43 bilhões entre sexta e segunda-feira.

B2W e Lojas Americanas trouxeram poucos fatos novos na apresentação, dizem fontes. Analistas e gestores de recursos, apesar de concordarem que as operações física e digital parecem seguir o caminho certo, criticam a falta de abertura de dados e clareza maior nos planos e projeções.

Observam que ainda paira no mercado a expectativa de uma reestruturação societária que leve a fusão de Lojas Americanas e B2W. Alegam que está cada vez mais difícil saber onde começa uma companhia e termina a outra – tema não tratado no evento.

Na visão de um ex-diretor do Submarino, todo esse cenário seria melhor absorvido se a operação digital da B2W não tivesse acabado de registrar um terceiro trimestre com desempenho abaixo do registrado pelos concorrentes Mercado Livre e Magazine.

A Lojas Americanas, do trio de investidores Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira, detém 62,5% da B2W.

Captações feitas recentemente pelas duas empresas somam um dos maiores valores do ano. Para proteger o caixa e reforçar o plano de expansão, desde julho foram levantados pela B2W e Lojas Americanas quase R$ 13,5 bilhões em dinheiro, considerando a oferta de ações da rede de lojas de departamento de R$ 7,9 bilhões (destes, R$ 4 bilhões aportados pela cadeia na B2W) e R$ 5,5 bilhões em duas emissões de dívida no mercado externo.

Para se ter ideia do peso desses R$ 4 bilhões, o montante é próximo a tudo que já foi alocado pelos acionistas na B2W entre 2011 e 2017, quando foram feitos R$ 4,3 bilhões em aportes na B2W, calculou o Valor. Na época, a B2W comprava e vendia seus produtos diretamente e isso consumia muito caixa e exigia aportes – em 2017, a empresa passou a adotar o modelo de marketplace, com outros varejistas usando sua plataforma. Agora, a empresa diz que a geração de caixa aumentou e que o capital vai para aquisições e expansão.

Poucas horas após o evento de sexta-feira, os analistas de Safra, Goldman Sachs e BTG Pactual publicaram relatórios reforçando a confiança no projeto geral, mas mencionando desapontamento. Esse tom foi mais direcionado à B2W do que à Ame, por exemplo, a carteira digital do grupo, que em breve vai passar a oferecer serviços de banco.

Luiz Guanais, analista do BTG, disse que não houve “orientação oficial” no evento sobre o braço digital e as aquisições de novos negócios, embora reforce que o projeto em andamento possa desbloquear valor para as empresas. Na mesma linha, a equipe do Goldman Sachs decidiu manter a recomendação de compra das ações das companhias, mas menciona “a lacuna de crescimento em relação a Mercado Livre e Magazine Luiza”.

De julho a setembro, as vendas totais (itens próprios e de terceiros) da B2W cresceram 56%, abaixo do Magazine Luiza, com alta de 148,5% e do Mercado Livre, com 74%. A B2W perdeu no trimestre a vice-liderança no on-line para o Magazine.

Em relatório, Irma Sgarz, que lidera a equipe de varejo no Goldman, disse que não houve menção da administração a “ metas de crescimento específicas para a B2W, exceto a ambição de acelerar a expansão acima da média dos três principais concorrentes do mercado, com suporte de um plano de investimentos de R$ 5 bilhões a ser implantado nos próximos anos”. A empresa não disse o período para o investimento. O Valor apurou que será em dois anos.

Na visão do Goldman, o comando das duas empresas mostra o compromisso de acelerar o crescimento da B2W e fala em voltar a ampliar a área de vendas na Lojas Americanas, em 5% em 2021, após encolher 1% neste ano. Mas Sgarz entende que “os investidores que esperavam metas quantificadas ficaram desapontados”. Há a ressalva de que, se as ambições da gestão forem atingidas, as projeções do banco para as vendas das empresas em 2021 e 2022 podem subir.

Para Guilherme Assis, analista do Safra, “embora o tom geral das empresas fosse positivo” o que faltaram foram informações mais concretas sobre “mudanças transformacionais” – como o avanço mais claro no nível de serviço no on-line, a entrada em novas categorias e em novos modelos de lojas. Sobre nível de serviço, a B2W diz que vem reduzindo prazos de envio (faz entrega em 3 horas para mais de 700 cidades), após triplicar de 2019 para 2020 o número de equipamentos de triagem nos centros de distribuição.

A Lojas Americanas foi perguntada, no encontro com os analistas, sobre o acordo com a BR Distribuidora, que inclui abertura de lojas em postos. Respondeu que com a pandemia o projeto não avançou, mas a empresa está “muito animada”.

Segundo Assis, do Safra, o discurso da B2W sobre crescer mais que os rivais precisaria se concretizar por meio de novas fusões e aquisições, já que ela depende menos da própria venda para se expandir, após migrar para o marketplace. O Safra mantém a recomendação de compra dos papéis das duas empresas.

A intenção das companhias era abrir mais detalhes no evento, apurou o Valor, mas a B2W teria sido cobrada pela CVM sobre dados divulgados pelo comando meses atrás, e optou-se agora por um discurso mais cauteloso. A empresa não comenta a questão. Todos os principais executivos de B2W, Lojas Americanas, Ame Digital, Let’s (braço de logística) e IF (braço de inovação) estiveram no evento na sexta-feira passada. A primeira edição nesses moldes ocorreu em 2019, quando entendeu-se a necessidade de “dar mais a cara”, mostrar-se mais aberta ao mercado, diz uma fonte.

Sobre a reação após o encontro, o Valor procurou as duas empresas. Elas destacam como pontos importantes do plano: o mapeamento de 54 negócios como oportunidades de aquisições, a expansão da operação da Ame (está testando o aplicativo como forma de pagamento móvel, por exemplo) e o potencial de abrir mais duas mil lojas da Americanas no Brasil. Ainda citam os R$ 5 bilhões de investimentos nos próximos anos e o plano de abrir a todos os clientes do aplicativo o serviço de assinatura (“Americanas Mais”) com frete grátis.

Considerando o que informavam no passado, as duas empresas abriram mais dados: a meta de abrir 22 centros de distribuição em 2022 já foi alcançada neste ano e a carteira digital da Ame registrou um volume total de pagamentos de R$ 2,7 bilhões em novembro, três vezes maior que um ano atrás.

Um evento oficial único para as duas empresas não tem sido incomum. Hoje, muito da operação da B2W passa pela Lojas Americanas e vice-versa, e isso cresceu tanto que era preciso ou unir de uma vez por todas ou buscar um plano B, dizem fontes. Para resolver parte dessa questão, a empresa criou em 2019 o “Universo Americanas”.

Ela envolve tudo de todos os negócios (logística, inovação) – além das duas empresas. Mas na prática a “Universo” não é uma empresa, e nem poderia ser.

Nela, há questões societárias mais complexas, como as divisões nas sociedades de outros negócios comuns à B2W e às Lojas Americanas, como a Ame Digital. Uma unificação envolveria troca de ações de B2W e Lojas Americanas e cálculos de prêmios (ambas estão no Novo Mercado, com “tag along” aos acionistas). Com capital aberto em bolsa, apesar de terem os mesmos sócios controladores (Jorge Paulo Lemann, Beto Sicupira e Marcel Telles), as duas têm diferentes acionistas minoritários

A questão central, feita há anos por especialistas, é: se estão tão integradas, por que não se juntam? A resposta sempre foi tão vaga quanto algumas dadas na semana passada. Na última vez em que falou do assunto, questionado por analista, Miguel Gutierrez, presidente do Universo Americanas, disse que “continua analisando essas questões e a direção avalia que está bom como está”. Ou seja, para agora, não há nada. “Mas isso não significa que isso não possa ser mudado”, completou, também sem detalhar. Segundo um sócio de uma gestora de grande porte em São Paulo, havia uma expectativa que o assunto voltasse no evento de sexta-feira.

“A verdade é que com a integração de canais está cada vez mais difícil saber quando termina uma companhia e começa a outra. A pergunta não é se, mas quando acontecerá a reestruturação que unirá as duas?”, escreveu no Twitter, durante o evento na sexta, Aline Cardoso, gestora de renda variável da EQI Asset Management. “Teria que dar prêmio grande para a Lame3 [ações ON da Lojas Americanas] versus Lame4 [ações PN] e Btow3 [ações ON da B2W]”.

Fonte: Valor Econômico