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No caminho da InBev havia uma China

25/09/2015 às 05h00

Por Patti Waldmeir | Financial Times, de Xangai

Este tem sido um ano de manchetes para o mercado de cerveja da China ­ mas por maus motivos. A produção caiu pela primeira vez em duas décadas, em decorrência da mudança nos hábitos de consumo de bebidas. Agora, a cerveja chinesa ganhou as páginas dos jornais de novo, quando a Anheuser­Busch InBev (AB InBev) estuda fazer um dos maiores negócios do setor cervejeiro de todos os tempos: assumir o controle da SABMiller. Ambas as cervejarias detêm posição de liderança no mercado chinês. Será que a China vai se revelar um obstáculo a uma potencial transação, seja devido à desaceleração de sua economia, seja devido a objeções dos órgãos reguladores antitruste? A exemplo de muitos mercados de consumo na China, o de cerveja foi atingido pelo ritmo moderado de crescimento da economia e o crescente enriquecimento e sofisticação dos consumidores chineses ­ só que de maneira ainda maior. O volume da produção de cerveja da China no ano passado, de 49 bilhões de litros, caiu quase 3% pela primeira vez em 24 anos, segundo o Departamento Nacional de Estatística da China. “O consumo per capita de cerveja na China alcançou 34,2 litros, nível ligeiramente superior ao consumo per capita mundial, de 33 litros”, informou o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, em recente relatório, cuja conclusão é que “o mercado de cerveja produzida em massa e internamente está ficando saturado”. “Não há muito crescimento das cervejas voltadas ao mercado de massa porque se trata de uma bebida barata e, com o crescimento de sua renda disponível, as pessoas estão experimentando outras opções, como vinho, uísque ou cervejas artesanais”, diz James Roy, analista de varejo da empresa de pesquisa de mercado China Market Research, de Xangai. As cervejas destinadas ao mercado de massa estão perdendo força. Os volumes de produção das cervejarias chinesas caíram 6% no primeiro semestre, segundo o BNP Paribas. Mas Charlie Chen, analista de cerveja do banco para a China, vê “uma forte tendência de migração para uma faixa de produtos mais sofisticada”. Ele chama a atenção para o fato de a Budweiser, líder do segmento premium na China, ter registrado crescimento de dois dígitos em volume no mesmo período. O fenômeno em torno dos produtos premium é fundamental para os lucros futuros nesse mercado, dizem analistas. A China tem o dobro do tamanho do segundo maior mercado mundial de cerveja, o americano, e “deverá responder por mais de 30% do crescimento do setor em volume nos próximos dez anos”, segundo nota da gestora de patrimônio Canaccord Genuity. Entretanto, “o lucro do mercado de cerveja dos Estados Unidos é cerca de sete vezes maior que o da China, apesar de [o mercado americano] equivaler a menos da metade de seu tamanho”, escreveram Eddy Hargreaves e Alicia Forry, da Canaccord. “Esse diferencial vai se reduzir significativamente com o passar do tempo…[e] sob todos os aspectos que examinamos, conquistar uma posição o mais forte possível na China tende a ser prioridade fundamental para a AB InBev”. Mas será que os órgãos antitruste de Pequim permitirão isso? Uma combinação AB InBev/SABMiller vai controlar mais de 40% do mercado de cerveja da China, quase certamente o suficiente para garantir que o Ministério do Comércio, que fiscaliza o cumprimento da legislação antimonopólio do país, criada em 2008, vai examinar de perto qualquer negócio nesse sentido. Quando a InBev adquiriu a Anheuser­Busch, em 2008, na primeira decisão antitruste publicada sob a nova legislação, o ministério proibiu a InBev de assumir uma participação acionária na China Resources Snow, a joint­venture entre a SABMiller, com 49%, e a cervejaria estatal China Resources Enterprise. Mesmo assim, dizem advogados chineses especializados em causas concorrenciais, a possibilidade de o ministério impor restrições a qualquer transação entre a AB InBev e a SABMiller, ou forçar a venda da participação da SABMiller na Snow, a principal marca chinesa e detentora de 21% do mercado, não é uma conclusão irrecorrível. “As cinco maiores cervejarias respondem atualmente por 70% do volume”, o que caracteriza a China como “o mercado de cerveja mais competitivo do mundo, com exceção da Alemanha”, escreveu o analista Tristan Van Strien, do Deutsche Bank, em recente nota. “Os mercados mais lucrativos do mundo tendem a ter dois participantes com fatia dominante… A China ainda está muito distante desse cenário.”

Valor Econômico – SP