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Empresas baratas e ‘escondidas’ no setor de beleza

07/07/2015 às 05h00

Por Tatiane Bortolozi | De São Paulo

Um dos principais interesses de empresas de beleza ao fazer fusões e aquisições no Brasil é ocupar espaços que ainda não foram preenchidos em seu portfólio. A multinacional suíça Clariant comprou participação de 30% na área de saúde e cuidado pessoal da brasileira Beraca, em janeiro, ao perceber a necessidade de complementar o portfólio com ingredientes naturais e orgânicos. A L’Oréal comprou a Niely em 2014 para reforçar a presença nos carrinhos das classes C e D. Neste ano, a classe média continua como foco de interesse de investidores e os ativos brasileiros, mais baratos, estão atraentes a estrangeiros, mas as oportunidades estão “escondidas” na cadeia de valor, dizem especialistas ouvidos pelo Valor. A classe emergente brasileira foi cobiçada por empresas globais de consumo nos últimos quatro anos e continua interessante aos estrangeiros, diz Alessandro Ribeiro, sócio da PwC e especialista em fusões e aquisições. A crise melhorou os preços, pela valorização do dólar ante outras moedas e, principalmente, a piora da expectativa dos empresários brasileiros, que deixou os negócios menos valorizados na hora da venda, explica Ribeiro. “O mercado de produtos vendidos em farmácias sem receita médica atraía estrangeiros há um certo tempo, mas eles não conseguiam boas oportunidades de compra. Neste ano, as coisas podem mudar.” As transações de fusões e aquisições do setor são discretas nas estatísticas de auditorias e firmas de pesquisa. A PwC contabiliza dois negócios em higiene e beleza no Brasil até junho e três em todo o ano de 2014. Nos cálculos da KPMG, foram cinco no ano passado e apenas uma neste ano. Os negócios são escassos em termos de marcas conhecidas, mas recorrentes no setor, segundo o sócio da PwC. Ele afirma que operações entre pequenas empresas, como fornecedoras de matérias­primas ou em negócios de nicho, como ingredientes naturais, estão aquecidas há dois anos. De cerca de 2,5 mil indústrias do mercado de produtos de higiene pessoal, perfumaria e cosméticos brasileiro, 95% são micro e pequenas empresas, de acordo com dados da associação do setor Abihpec. Das duas aquisições contabilizadas pela PwC no setor neste ano, além da compra de participação da Clariant na Beraca, em janeiro, está a fusão da brasileira Sweet Hair com a All Ore, uma empresa pré­operacional de mineração, com capital aberto na bolsa brasileira desde 2009. A All Ore desistiu da mineração. O investidor alemão Dirk Adamski, dono da All Ore, trocou o negócio de commodities pela Sweet Hair, fundada em São Paulo em 2011, especialista em produtos para cabelo e com uma rede de franquias de salões de beleza, embora pouco conhecida do público. A aposta foi no potencial do país como terceiro maior mercado de produtos de beleza do mundo, com faturamento de R$ 43,2 bilhões em 2014, segundo a Abihpec. O aumento do desemprego e da inflação devem forçar o brasileiro a ser mais cuidadoso em seus gastos nos próximos anos, mas o mercado de produtos de beleza e cuidados pessoais será um dos que mais se beneficiarão do crescimento do consumo de 2015 a 2019, com evolução estimada em 63%, segundo a firma de pesquisa Mintel. Os ativos costumam trocar de mãos mais frequentemente no exterior, o que acaba por se refletir indiretamente no Brasil, mas sem compor as estatísticas locais, afirma Luis Motta, sócio da KPMG. A americana P&G negocia por US$ 12 bilhões a venda de seus negócios de cabelo, perfumes e cosméticos, enquanto a anglo­holandesa Unilever adicionou três marcas de empresas de dermocosméticos ao portfólio em quatro meses ­ a britânica REN Skincare, em março& 894; a americana Kate Sommerville, em maio& 894; e a Dermalogica, em junho ­, focada em produtos de maior margem. As fusões e aquisições globais no setor de cosméticos somam 46 negócios neste ano, ante 56 em igual período de 2014, segundo a Deloitte, sendo uma das categorias mais atraentes a de produtos para pele. Marcas de nicho e de luxo guiam a preferência de investidores globais e as transações representam um caminho mais curto para lucros maiores, escreve o analista Nicholas Micallef, no blog da consultoria Euromonitor. Ele explica que as fusões e aquisições produzem um resultado mais rápido que o investimento em novas marcas, que demandam tempo e investimento até cair no gosto do consumidor e gerar escala. Achar novos espaços e criar novas referências pode ser difícil e arriscado. A KPMG pondera que os investidores estão mais conservadores neste ano, como reflexo de uma potencial retração da economia brasileira e, por isso, espera desempenho igual ou menor em fusões e aquisições de higiene e beleza que um ano antes. No segundo semestre, a venda da divisão de fraldas infantis da Hypermarcas e dos negócios de beleza da P&G, que inclui a versão profissional da Wella (Wella Professionals), vendida no Brasil, podem movimentar os negócios do setor no Brasil. Para a KPMG, higiene pessoal engloba cosméticos, fraldas e produtos focados em saúde.

Valor Econômico – SP